está proibido afogar-se em lagos de águas rasas

está proibido afogar-se em lagos de águas rasas
foi do que disse o que me lembro,
ao apanhar meu escalpo
e elevar meus pés da lama escura
exorcizando-me do transe qual a
mão certeira que prende pela cauda
um peixe aturdido respirando mar de chumbo

eu, finamente encoberto pela fonte turva,
engulo os fluídos amargos
enchendo-me
adensando-me
incansavelmente à espera de um gole final,
sem, no entanto, submergir aos próprios prantos
até que violentamente tragado pelo
magnetismo de tuas palmas acesas

está proibido afogar-se em lagos de águas rasas,
foram as ondas captadas do teu aparelho

proíbo-te que morras de aflição
de analgésicos
de abcessos, dos teus excessos
de morte só permito que morras na aurora finda dos teus dias
com a docilidade de quem asila a dolente
alameda guia sem permitir-se à abreviação das passadas do tempo

está proibido elevar a angústia à altura da mais gentil casa
nem bradar seus hinos, saudar seus mártires, celebrar seus torneios
ou festejar seus amores áridos e desesperados

é tempo de mergulhos de apneia profundos
fim da era dos afogamentos.