canais

seguro que amanhã cedo voarão os corvos alargando o céu com suas onomatopéias rasantes. a senhora argelina entregará baguettes e croissants com o mesmo olhar impaciente com que fitava nossos acentos trôpegos. no elevador do bâtiment n. 55, dois turistas, quatro chineses e uma matilha de crianças levadas esperarão sistematicamente a porta se abrir em fila indiana. e até mesmo a garçonete vietnamita do guo min seguirá servindo pratos errados confundindo os patos au basilic com frangos agridoces perguntando-se onde nos enfiamos que jamais voltamos aos nossos mesmos lugares, entre as carpas gordas que nadam no aquário de aspecto seboso engolindo porções de pedras, cuspindo-as por entre as brânquias, e os mesmos pedidos idênticos aos de antes de ontem e dois meses atrás.

seguro que annabelle descerá pelo elevador com o capacete acrochado ao ombro, o mesmo vestido verde e solto, florido, o passo apertado e os croquis e esboços enfiados na bolsa sempre pesada, voando pela ciclovia apressadamente até o escritório. seguro que amará por mais tantas vezes, ou nenhuma, antes de também partir dali.  

na biblioteca nacional alguém pedirá o livro que ontem líamos e grifávamos com nossos olhos estimulados de café. haverá quem reclame da comida do restaurante universitário, dos dias incansavelmente cinzas, da impaciência dos seres falantes, das máquinas de chocolate que nos sustentaram pelas madrugadas, da estação mediana de couronnes que fazia com que o trajeto se alarguasse à medida que avançávamos em direção à casa donde já não vivemos. 

as salas da cinemateca continuarão atordoando os fiéis com sua curadoria impecável e incompatível com a indisponibilidade do tempo no mundo de hoje. 

mas estranho será não ser despertado pelos ecos abafados das sirenes ou os gritos eufóricos das crianças na rentrée deste novo ano escolar. como assim será não estar na tua rotina admirável de ir sempre à casinha, ao chuveiro, à cozinha, às bananas, ao leite com chocolate, aos pacotes de macarrão e molho pesto, à mochila preparada meticulosamente, ao guarda-chuva que te acompanha mesmo no alto e brevíssimo verão.

uma casa se constrói com os moveis, as coisinhas penduradas na parede, com os barulhos que os pés fazem no assoalho diferenciadamente, os ritmos de cada corpo, as pausas e os recessos, os dias de luto e as revoluções. uma casa se inventa numa energia coletiva entre as pessoas, copos quebrados, umas plantas, um tédio desgraçado, tomadas de três pinos, sabonetes, o cheiro do café fervendo cedo, lixos recicláveis, orgânicos e bio, ovos e abobrinhas, as baratas que copulam fazendo família no interior dos encanamentos, as pias e os ralos entupidos, cabelos e cabelos e chumaços de cabelos escorridos pelos azulejos brancos do banheiro, as mãos marcadas nas paredes. uma casa se faz com ausências repentinas, um tanto quanto de memória, dores barriga, de fígado, de cabeça, mal-estar e vertigem. 

seguro que amanhã serão as gaivotas – os urubus, as araras, os colibris – a arranhar o céu com suas onomatopeias rasantes por outras casas donde habitaremos com nossos corpos provisórios, com os mesmos pés arrastados que marcavam o assoalho daqueles meses.

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