a fotografia de youli

percebo o telefone a ponto de entropia no bolso direito da bermuda enquanto salto do metrô em coretin cariou, três por centro de bateria, não vai dar pra nada. fico indignado que a esta altura do mundo eu, ainda, persista com uma extrema dificuldade de comunicação com uma longeva lista de aparelhos portáteis roubados, perdidos, deixados tombar na piscina, esquecidos num táxi, partidos em mil pedaços por quedas de alturas nem sempre significantes. tento encontrar o contato dos colegas espalhados pelo parque, sem sucesso, a tela fica preta após a logo do sistema operacional me indicar que não vai rolar e o telefone hiperaquecido conclamar os delírios de nosso mundo desconectado. olho ao redor para uma villette atulhada. concluo que não encontrarei mesmo ninguém a não ser por uma sorte imensa ou por um descuido e assim de trombada dê com o topo de minha testa com a de laura.

faz trinta e poucos graus depois de um inverno desgraçado, ao menos pra mim, que tardou em partir e nestes dias de primavera quente paris parece mesmo como a moveable feast, hemingway não deixa de ter certa razão, com esses banquestes espalhados pela grama do parque entre famílias de muçulmanos, gentes da argélia, de saint-denis e eu, com uma garrafa de rosé fresco na mochila, de 2,50 euros, um abridor e os fones de ouvidos por onde ty segall brada que “mai leide is on faier, chi nous iú ar a laier“. passo por um grupo de jogadores de petanque, todas e todos lindos e lindas, com seus corpos magros e altos, cabelos irretocáveis em cortes masculinizados ou nos coques desajeitados que as francesas fazem com um charme irreproduzível, determinismo capilar, diríamos, com suas garrafas de frizantes, um piquinique de frutas e produtos biô, com um ar de ecóle de comérce que não deixa de me seduzir e criar repulsa igualmente. outros corpos menos baseados em simetrias e aritméticas neoclássicas libertam-se das roupas ficando à mostra por toda a extensão do canal, de uma ponta a outra em ambas as margens, cobrindo todos os espaços de grama antes vazios, buscando alguma sombra ou aceitando mesmo os raios densos que descem do céu nos tocando como pequeninas labaredas de fogo que vez ou outra nos queimam a pele, mais ou menos branca, mais ou menos negra. a enorme geode reflete invertidamente o tapete de pessoas amontoadas misturando as linhas entre o chão e os limites infinitos do céu, de modo que não sei se ela parece mesmo um espelho ou uma tela de léd e o que vemos é uma projeção atravessada por sinais digitais que distorcem a imagem gerando paisagens espacialmente incompossíveis. entre muitos tênis brancos de cano baixo, tiro minhas sandálias compradas em fortaleza e usadas uma única vez nos últimos quase dez meses. ando até a extensão final do bulevard passando pela tenda onde meninas bonitas com gliter e tinta no rosto esperam o início da próxima banda indi-folki pra deixar esse domingo com cara de filme de sandence, com seus casais felizes e trilhas misericordiosas.

como num domingo na praia, com todo mundo querendo dar pipoca aos macacos, paris e o rio de janeiro se parecem um tanto. são cidades extravagantes, excessivamente bonitas, visitadas por uma multidão de gente enlouquecida por fotos e funcionam muito bem vistas de cima, como nos cartões postais, com um distanciamento irreparável de onde não é possível ver na praça de estalingrá os refugiados, os meninos que passam maconha na qué de porte de dophíne, o metrô lotado na linha 13 ou a boa noite em montróiou. não se vê também os ratos no xampi de mar, o mijo nos vagões, os regufiados sã papier aguardando a decisão da justiça sobre seu estatuto enquanto gente nessa união europeia atravessadas por fronteiras físicas e simbólicas. enquadrada nessa tarde de primavera, paris justifica a obsessão dos impressionistas pelas luzes na notre-dame à beira do sena, como os barquinhos e loirinhas e ondinhas da bossa na orla de ipanema. mas dali não dá pra ver a galera pulando as catracas em chatelêt, as prostitutas chinesas no bulevar de la vilete, os ônibus de madrugada onde se falam todas as línguas do mundo, e quem diria, até mesmo francês, os adolescentes burgueses que vêm de sã-germã-ã-lé pra uma noite de farra, ou de uma festa ripister cheia de músicos de jazz, dj’s alemães e meia dúzia de desconvidados. o rio e paris cruzadas, montadas sobre as outras imagens que não a da torre ou do cristo iluminado, na avenú de flandre à noite sempre hostil como a rio branco, ou a caótica estação em république, cinelândia paulistana, com os skatistas disputando espaço com os pedestres, ou aqui nesse parque que é meio praia, meio calçadão, com uma água meio suja, mas de graça, com as indianas que vendem cerveja escondida para fugir da fiscalização, os grupos de judeus novinhos, gentes que nem sei.

olho mais uma vez à minha volta à procura de um rosto entre tantos que vão passando indiferenciadamente e indistintamente aos meus olhos descapacitados – fixados às vezes por uns quantos olhos, umas tantas bocas e umas belezas que passam enquanto procuro os traços daqueles aos quais já posso reconhecer entre as pintas, brincos, marcas de expressões. enrolo um joã de maconha com tabaco pueblo e uma piteira rizzla, tiro o tênis de corrida já judiado e uma meia escura, afago um pouco o corpo antes de sentar-me na grama fresca convicto de que não encontrarei ninguém, restando-me deixar o controle do dia de domingo ao mais sincero acaso. às minhas costas ouço pais com sotaque recifense chamarem a atenção dos filhos que correm numa guerra de água e balões. ao meu lado, um grupo de uns quinze jovens, mais jovens que eu que ainda me sinto pra jogo, graduandos no bac de artes ou na licênce de filosofia da paris 8, comerem uns wraps, lanches e comida comprada no monoprix. uns casais deitados com seus corpos não muito colados compartilham o sol e a solitude. daqui de onde vejo parece até que o mundo vai bem sem o extracampo das guerras que agora mesmo correm, por lá e além, e que não deixam de insinuar a sua presença nas tensões entre as burcas e crucifixos nessa paris, domingo à tarde.

dois tragos na maconha comprada via sms e entregue como um pedido pelo uber eats, com selo de qualidade e faq para dúvidas e eventuais sugestões, neoliberalismo invadindo todos os meandros das trocas comerciais, incluindo as ainda não-lícitas, como um bom joã. rapidinho fico um pouco defoncê, que na melhor das traduções me parece chapado mesmo, olhando as gentes passar sem achar mesmo, olha lá, muita graça. a boca começa a secar, molho os lábios com um pouco da água morna, o sol já querendo fritar os miolos e eu ali, deitado, contando os patos, desenhando nuvens e coçando os vãos dos dedos mofados do inverno quase eterno.

um homem negro, bonezinho, andar sincopado trabalhado no hip-hop do gueto, bermudão, caminha entre os grupos de loiros buscando algum olhar que o cruzasse. encontra os meus aleatórios e caminha até minha direção, certeiro. num francês gigando de uma forma que não reconheço a origem, embora saiba que trata-se de um legítimo habitante do banliô, como um bom carioca que pronuncia “quaoé mermão?” de um jeito irreconhecível aos falantes de português de qualquer parte: je prends une photo de toi? ele aponta a olympus om-1 sobre a grama ao lado dos meus outros pertences e repete a pergunta. bah oueh, respondo, e ele pega o aparelho carregado com uma película kodad tri-x branca e preta sem me perguntar sobre os comandos de foco, obturador, diafragma. où est le tac? simulando com o dedo indicador o gesto de disparar a câmera. mostro que para acionar o tac é preciso um pouco de força. o homem começa a me dirigir, enquanto fico entre um pouco chapado e um pouco constrangido sentado à sua frente. naturelement, me instrue a manter-me como se sua presença não fosse ali percepetível. queria argumentar que isso é um delírio, que é impossível reagir à câmera ignorando a sua presença, que é isso o que faz uma imagem, saber da presença da câmera, reagir à sua violenta inscrição entre dois ou mais corpos, entre um que vê de um ponto estável e o outro na ponta de lá da objetiva. simulo minha melhor atuação natural mexendo no cabelo, ajeitando os olhos e procurando motivos outros para mirar que não a própria câmera. ouço o tac ser pressionado e uma primeira foto é feita. sem perguntar, o homem carrega o negativo para uma segunda pose. desta vez, decido encará-lo, fixamente. levanto a cabeça em sua direção, resguardado pelos olhos, mantendo assim o olhar firme para a câmera. não pestanejo, ele tampouco. ficamos os dois assim num duelo de olhares. eu, com meus óculos escuros de dois euros; ele, com a câmera analógica de ferro. o instante dura uma tarde inteira, parece que o parque esvazia e estamos só nós ali a nos enfrentarmos por essa tensão de olhares, na dispusta pela construção da imagem que será fixada na superfície sensível da película, mediados por uma câmera que também decidirá com seus próprios meios a forma justa de dar a ver nosso encontro. penso se o diafragma estaria excessivamente aberto, se estou em foco, se ele enquadra a família às minhas costas ou se minhas sandálias e a pochete estão emolduradas. tac. a nova pose é feita, ele vem até mim devolvendo a câmera e agradecendo. agradeço também e ofereço um trago do joã que havia apagado há pouco. responde que sim, senta ao meu lado, entrego de uma vez o baseado e o isqueiro, e perguntou seu nome: youli. pergunto como se escreve, ele soletra letra a letra e pergunta o meu: isaac. é a minha vez de soletrar.

a tarde corre enquanto youli e eu refazemos o mundo. não entendo completamente o que ele diz, ele tampouco deve atravessar meu sotaque sem perder as nuances que compõe uma boa prosa entre dois iguais. não somos iguais, a distância instalada nos nossos corpos, origens, destinos. nessa paris rachada e cindida, nesse mundo fraturado. youli me deixa quando a noite começa a cair. antes disso trocamos nossos telefones em pequenos pedaços de papel, tomados de empréstimo dos jovens ao lado – youli também está sem bateria. pede que eu prometa que revele a foto e vá ele até ele, no dia, local e hora marcado. prometo. ele parte com a garantia de que nos reveremos em breve.

uma semana depois revelo o filme e imprimo a foto. chego ao local combinado cinco minutos antes, com a câmera carregada e a minha própria imagem estampada: tac.