o animal interrompido

Alguém nos disse que deveríamos acordar mais cedo que o habitual naquela manhã, lavar os olhos com sabonete sem perfume e água corrente, tirar as crostas secas que colam as pálpebras no furor dos sonhos intranquilos, espreguiçar o corpo para vencer bem de manhãzinha a artilharia que nos lançaria sobre as cabeças já atordoadas as bombas aplacadoras de desânimo, violentamente vilipendidas pelo napalm que se estende ao longo dos campos de futuros insondáveis, o fogo inextinguível, a tal chama que não se apaga. O mercúrio agora toma a forma de uma bandeira sobre uma poça de lama, ou um mapa com suas linhas fronteiriças que desenham arquipélogos do Pacífico do qual ouviremos falar apenas duas vezes em circunstâncias diversas no jornalismo televisivo, mas é mesmo só teu ventre inchado, do buraco aberto nos teus canais para que cuspisse o corpo deformado que ainda não se percebia elefante, monstro, girino, ser larval cujo molde futuro, a pele áspera ou lisa, cabelos ou asas, de dimensões mínimas  ou  colossais, sequer adivinháramos. Prematuro não-ser, entre todos os outros natimortos antepassados e os frágeis fetos acorrentados do porvir. Falaram que despertaríamos com a boca seca, desejosos de um banho, sem sombra de fome mas com olhos miseráveis, desmoronados, sem saber se das notícias havia ganhado o candidato que a todos abominavam aos berros, aos gritos alucinados contra a ofensiva diabólica que nos alcançava os pés ainda descalçados daquele mês que de tão árido nos faltavam líquidos para umidecer os lábios, para mijar, para encharcar um pouco as sinapses. Ao invés disso nos tardamos, perdemos nossos empregos, nos mantivemos atados, atávicos, à cama posta sob a janela de onde já não passava brisa, de onde podíamos ouvir apenas parcialmente o som que o vento faz quando dança apressado, assim deve ter sido mais que uma década inteira e embora estivéssemos lado a lado, nos sentíamos ilhados pelas faixas coladas de nossa solidão desassistida no toque dos corpos inteiriços, compartilhado mesmo era só o cheiro de formol que ainda se descolava de nossas roupas, das línguas com as quais foram produzidas e ditas as palavras que ecoaram pelos corredores de todas as alas dos hospitais clandestinos, de todas as sacristias dos velhos padres molestadores, de todos os corredores de psicólogos onde jovens abusadas desfalecem solitárias, das salas de espera em que famílias tristes suspendem suas novelas, dos alto-falantes evangélicos que com seus hinos e ritos glorificam a vida e desejam igualmente a mortes dos que são os mesmos retroagindo punitivamente a todos aqueles que, como nós, com seus paus e paus, bucetas e bucetas, fecundaram, longe das séries industriais, das máquinas de transcriação genética, frágil e ocasionalmente como nós, que mal esperávamos que um minúsculo corpo nadaria e sobreviveria em meio à competição por líquidos e correntes desconhecidas às nossas vistas parcializadas, até que contraísse no interior do teu ventre para um mergulho no abismo de um vaso sanitário, escorrendo de ti como a seiva arbórea depois de uma machadada, a lâmina cravada e fincada na epiderme, o fluxo suspendido, a morte desmetaforizada. E nós dois ali tão pequeninos, nos sentíamos mesquinhos e acoados, acusados pelas vozes que nos diziam que levaríamos ao túmulo a dolorosa culpa que impediria aquele ou aquela que jamais será, das mesmas vozes que fazem imperar o mesmo odioso discurso de morte aos que ao mundo já vieram, a nós que cá já estamos.