esboço de um dispositivo para escrever uma tese [revisited]

[esboço de um dispositivo para se escrever uma tese]

Pergunte-se sobre sua hipótese. Se já houver qualquer hipótese clara, escreva-a em duas linhas. Publique-a em alguma rede social, se precisar de reprovação alheia. Narre-a à sua avó, se precisar de aprovação alheia. Imprima-a num mural de anúncios no supermercado, caso haja desejo de anonimato. Pregue-a em postes, nos fóruns da internet. Sinta-se livre para não escrever a tese após qualquer um desses movimentos: vá para outro lugar.

Desenhe um círculo grande num campo amplo o suficiente para delimitar a maior área possível sem confundir-se com outros terrenos. Sente-se no centro desse círculo. Deite o corpo sobre a grama, a terra, o asfalto, o tédio. Olhe para o céu até que chova, até que um avião caia, até que a noite venha, até que morra. Tente não fazer nada durante esse tempo. À esta altura você já deve estar se coçando.

Atire com a maior força possível seu celular contra a parede sem machucar conhecidos. Dos estilhaços recrie um novo objeto, artístico ou com alguma funcionalidade abstrata, e venda-o por 13 reais pelas redes. Alguém o comprará.

Com os 13 reais que ganhou pelo objeto vendido feito dos estilhaços de seu celular da mais nova geração compre o quanto puder de papeis com formatos variáveis e canetas coloridas. Eles podem já ter sido usados, tanto os papeis quanto as canetas. Pode haver linhas nos cadernos, se preferir. Se restar algum dinheiro – é provável que não sobre nada –, compre cola.

Recorte tudo o que possa criar relação com o pensável, ainda que não se pareça tempo-espacialmente relacionável (no jargão acadêmico diríamos que tudo aquilo que não faz parte do seu corpus ou dos referenciais bibliográficos convencionalmente utilizados na sua área de pesquisa). Qualquer fagulha de interesse é potencialmente incorporável, uma vez que escrever é uma operação com signos, discursos, gramáticas, fonemas, conceitos, figuras de linguagem, abecedários que existem no mundo, e não um ato de invenção afeito a gênios idolatráveis, como quiseram e ainda tentam nos convencer. Escrever é trabalho na matéria. Preencha as páginas somente com informações alheias. Se algo parecer inédito ou muito particularmente seu, cuspa-o para longe.

Assuma a pilhagem como método de trabalho. Essa é a nossa revanche contra a colonização do pensamento no mundo eurocêntrico. Não apague as pistas deixadas. Não cite ninguém e acumule tudo o quanto puder. Não permita sobra de migalha de pensamento alheio – tudo é do mundo! tudo está no tudo! – incorpore ao máximo. A antropofagia é a metodologia do contra-ataque. À esta altura, você já estará inventando – ou, se assim o quisermos, fazendo ciência (para o horror dos puristas).

Todas as manhãs, ou antes de dormir, leia poesia. Caso esteja demasiado cansado para ler, durma. Se ainda assim estiver cansado, ouça Jimi Hendrix ou Daniela Mercury.

Depressão, insônia, crises de ansiedade, falta de ar, estafa mental são sintomas que acometem as madrugadas da pesquisa e o cotidiano da vida de doutorandas e doutorandos, é o que diz a própria OMS. Não é saudável passar quatro anos envolvido solitariamente com um texto, com páginas e páginas de escrita, com a pressão dos orientadores e agências de fomento, a competição dos colegas, os prazos a cumprir, a baixa auto-estima, a insatisfação permanente, com o futuro próximo, o desemprego imediatamente porvir. Contra todos os males, o antídoto é somente um: dançar! sempre que possível – Nietzsche já sabia, mas parece não ter praticado, as crianças o fazem, talvez por isso sejam mais felizes.

Caso ainda não tenha atirado o telefone contra a parede, eis uma boa hora (tente não gritar para não haver encontros desnecessários com a polícia, não será bom, quase nunca é bom encontrar a polícia, não importa tanto o contexto ou o crime em jogo, mas importa sua cor, seu gênero, sua carteira de identidade no bolso e as notas na carteira).

Não tome nenhum tipo de medicamento.
Manere no açúcar.
Evite os agrotóxicos, tal como a própria bancada ruralista.
Não compre armas. Jamais. Não há alegria em se ter armas. A não ser que sejam de sabão e bolhas, que possam servir às crianças em dias de calor e salada. Do contrário, não nos servem.
Em caso de angústia, escute vozes – pelo rádio.

Faça amigos que não se interessam em nada pelo que você pesquise. Faça amigos que não se pareçam em nada com você hoje mesmo ou há vinte anos. Faça amigos na hora do lanche e logo em seguida esqueça-os.

Fotossíntese-se. Veja como as plantas performam suas formas no mundo, como inventam cores e modos de relação singulares entre si, os empreendimentos imobiliários, os velhos casarões abandonados, como brotam do chão onde parece haver tão somente concreto. Aprenda com as plantas a ficar em silêncio e ainda assim estar presente por todo o planeta, na plenitude de sua forma de existência, germinando, florescendo, morrendo e recomeçando.

Anote todas as frases que parecem absurdas e imprestáveis, tais como estas. Envie sms para conhecidos com cada uma delas. Anote as respostas.

Se apaixone três vezes em cinco dias no: departamento de imigração; na: fila do auto-atendimento do bilhete de transporte; no: veterinário.

Reconheça a inteligência de tudo o que não é humano como outra, igualmente capaz de criar mundos e saberes. Aprenda o que há no caminhar dos gatos, comunique-se com os pássaros. Prefira as crianças aos pareceristas ad hoc. Os morcegos aos especialistas. Em caso de dúvida, consulte um urubu. Não fale senão com os golfinhos, as morsas, os lobos, os tucanos, as serpentes, as heras. Dance com as bactérias. A razão ocidental está nos levando ao apocalipse, é preciso reagir coletivamente ao imperativo desastroso da humanidade.

Após 23 meses leia pela primera vez todas as notas que colou nos papeis. Agora, use as canetas coloridas. Escreva sobre as frases com outras palavras, repetindo-as integralmente.

Se não funcionar, toque fogo em tudo.

Se nada surgir, comece assim a sua tese.

 

[e]

 

É possível que te chamem de louca
Que não consiga financiamento para um pós-doutorado
Que não seja aprovada nos concursos públicos
Que perca qualquer credibilidade conquistada às custas de algum suor e muito lobby
É possível que seja motivo de chacota nos grupos da Compós.
Mas nada é mais desolador do que passar tanto tempo assim escrevendo para que ninguém jamais a leia, para que a tese descanse solitariamente na prateleira da universidade sob sua capa preta com finos fios de ouro

 

[e]

 

Toda tese contém em si um enorme campo de vida que a excede tal como excede às mãos que a escrevem. Falamos em muitos, como os heterônimos de Pessoa, como as crianças agrupadas, como Caetano tropeçando desastrado nos versos de Bandeira. Elogio à coletividade, ao saber conectado entre inteligências, ao outro que desconheço e a mim habita às 6:23, à hora do lanche, na boca que diz palavra oculta ou se pega como de assalto por pensar antes o impensável. Entre as coisas de que ouvi falar, as coisas que jamais pensei, as coisas que remontam a mim e não é porque me chegam que eu as posso tomar como minhas mesmo, vem uma tese. São coisas que vieram. Daí a mim de tomar algo com elas. Um café, um parágrafo, um assombro.

Fazer amor. Fazer viver. Fazer escrita.