a voz

tenho essa voz
há tanto tempo

às vezes me sai distraída
talvez um pouco abusada
vem de um hemisfério sombrio
uma voz presunçosa, atiçada

às vezes é subterrânea
de terras desavisadas
sussurras desentendida
não há palavra noturna que a traga

desvirtuo nos vocábulos
tantas vozes incongruentes
quando falo ça va? s’il te plait, un petit café!  
me soa como se fosse outra
a dizer em um tom indiscreto
os nomes que desconheço
disfarço um acento inimigo
sai da voz um eco inocente
convém usá-la de vez em quando
como um leão grunhindo estridente

passo muito tempo sem tê-la
até que um momento impreciso
relembro de coração verso antigo
a voz produz melodias
de capacetes
chuviscos
canto caetano três vezes cinco
e a voz sorri quando digo
que hoje ainda é domingo
amanhã? não sei, meu amigo

faz trinta e um anos que a uso
de modos e funções variáveis
eu te amo, saudade, me esquece
ressonâncias de tempos nublados
até num vento da colina
a voz que outrora amara
já hoje não é mais nem minha
deixei-a assim registrada
sob os vasos e ciprestes dos montes
a deslanchar pelos mares
de quando em quando uma voz bem fininha
cheia de medo se encurrala
às tardes no boulevard ela urge
confraternizando nos sons do passeio
entre chineses mesquinhos e passarinhos
voam a voz e os sibilos

com a voz cantei dia desses
no centro de uma biblioteca
havia sérvios, alemães
gal, ossanha e fado
fizera uma estripulia
com refrões de back in bahia
um coro de cinco outras vozes
rimamos as noites do norte

disse um monte de delírios
pra vizinha do quinto andar
com a mesma voz que discuto
de maneira tão frequente
os astros e os edifícios
os pesos do ocidente

se tiveras uma voz não seria
a mesma que me veio
seria nina
dorival
milton, aretha

mas voz nenhuma é: senão esta a voz que tenho