mini-facas no meu corpo | parte quatro [baleias]

Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir.

Hei de aprender com ele
a partir de uma vez
– sem medo,
sem remorso,
sem saudade.

Não pensem que estou aguardando a lua cheia
– esse sol da demência
vaga e noctâmbula.
O que mais quero,
o de que preciso
é de lua nova.

(“Lua Nova”, Manuel Bandeira)

Lisboa, abril de 2018

Nos encontramos numa padaria com piso de mármore, do mesmo mármore de onde se veem as fachadas, corredores, os setenta e cinco milhões de degraus, os túmulos e o solo de todas as estátuas da península ibérica, de tantas quantas de Lisboa e talvez em suas ex-colônias além-mar, do mesmo mármore que a invasão carregou ao centro do Rio de Janeiro, enquanto caminhamos por São Sebastião, pela grama molhada do Parque Eduardo VII ao lado das senhoras putas que se escondem do frio e uma bandeira orgulhosa da nação dança deslumbrando sua gigantesca melancolia sobre o passeio com olhos babando as ondas moles do Tejo.

Numa tasca pequeninha e lotada, comemos feijão com arroz, batata frita, ganho dois ovos por ser vegetariano e molhamos a boca seca de farofa com uma jarra de vinho da casa, enquanto conversamos sobre a especulação imobiliária, abrir um negócio e ter contas a pagar, vistos e prazos, um pouco de literatura, querer escrever, faltar tempo, disciplina, contato, técnica, nome próprio, talento. Voltamos por umas ruas que eu desconhecia em meio a prédios enormes de uma modernidade e tanto, o vento gelado, apesar de abril, corta a minha garganta e o cigarro enrolado com fleur du pays insiste em apagar em meio a um chuvisco a la São Paulo em julho, meio madrugada mesmo sendo pouco mais de dez da noite e Lisboa está fantasmagórica nestas bandas não tão próximas das pirambeiras do bairro Alto onde os jovens de agora fazem tudo parecer uma enorme convenção dos estudantes de Erasmus sob o frenesi inexplicavelmente insuportável do reaggaeton que domina a Europa aqui e ali. Me ajeito num sofá de couro branco e confortável na sala do colossal apartamento que Nika divide com amigos enquanto esperamos o tuga apaixonado chegar. Pego uma lista de restaurantes e dicas com os locais sobre o que fazer nos próximos dias e apago cedo enquanto o casal dobra a esquina do quarto ao lado rumo ao amor.

Sou o primeiro a levantar, junto com o sol, ajeito rápido as coisas tentando ser silencioso, Nika aparece com cara de sono dizendo que vão enrolar mais um pouco a manhã, agradeço pela camaradagem e o sono quente, e parto depois de lavar o rosto e meter uma roupa quente em três camadas com direção à mais próxima padaria que encherá minha barriga com um bom café preto e uma tosta fresca. Percorro o caminho idêntico à noite anterior, mas agora as putas dão lugar aos ambulantes, os ratos aos turistas, e a chuva gorda ao raios ralinhos encobertos cá e lá por nuvens espessas alternando o clima entre um inverno insistente e uma primavera tímida que tarda a aparecer neste ano que dizem, há mais de trinta, não resistia tanto o frio a partir.

Na livraria do Instituto Gulbenkian procuro pelos livros de Maria Gabriela Llansol, auxiliado por uma portuguesa miúda e loura, assaltados os dois pelas crianças agrupadas em montes com as professorinhas, todas meio aos pulinhos, aos gritinhos, agitadas e extravagantes. Ficamos os dois ali a admirar os pequenos redemoinhos como se quiséssemos ter os nossos próprios naquele instante. A vontade passa de imediato, encontro uma tradução para o português de um ensaio de Didi-Huberman que não conheço, sou tentando por todos os livros do Pessoa em edições maravilhosas e como não tenho muitos euros finjo que compro cada um e os devolvo ao mesmo lugar de antes até que vejo a capa azul de um romance de Afonso Cruz que nunca soube quem foi ou é, e sobre a capa um pedaço de baleia cruza o fundo azul como um oceano ou um céu e já não se sabe se ela voa ou navega e me pergunto se de fato não voariam as baleias, os peixes, as mantas e todos os seres aquáticos pelo oceano profundo inabitável a nós sem brânquias, com nossos pulmões tão incapazes que mal alcançamos pouco abaixo da superfície razoável da água, ouvidos rachando pela pressão, esmagados os tímpanhos pelos braços de aço do oceano.

16 euros mais pobre, deixo a biblioteca e sua vendedora perdendo-me por entre os jardins exteriores do museu com suas hordas inteiras de turistas e colônias de coreanos que fotografam sistematicamente os patos dando ao lugar um ar de elite burgeoise francesa. Já estive aqui, há mais de um ano, em fotografia, neste mesmo lago, a água mansa ondulada, uma breve solidão, talvez alguma apatia, uns amores distraídos que viriam se descobrir no devenir, uns bambus, patos (seriam os mesmos?). Vou ao sítio de onde imagino ter a fotógrafa enquadrado o açude artificial naquele dia de setembro ou outubro (faz quanto tempo?) antes de enviar-me a foto, procuro na memória o frame, a posição do corpo empostando a câmera, ela pouco mais baixa que eu, os joelhos semitensionados, a respiração entrecortada titubeante, o clique incerto. Não encontro a pose, dou-me conta que os coreanos me tomaram como modelo, invento gestos abusados fazendo-os rir e perco-me em seguida pelas vias estreitas entre árvores, pássaros, amantes de arte moderna e gente à toa que faz hora aguardando o shopping pouco à frente abrir dali a menos de uma hora.

[e]

Sarah está alegre. Almoçamos na hispter Lx Factory ao lado de um ator famoso do Rio, foi ela quem viu. Ficou tão entusiasmada que pediu pra tirar uma foto, depois de de uma crise de vinte minutos entre o desejo impulsionador e a vergonha bloqueadora, embora o garçom nos diga que cá em Portual ninguém o conhece, nem mesmo sabem que é ator, que faz novelas, que vai a programas de domingo contar da vida pessoal, que tem uns quantos seguidores, que estampa revistas e que agora se autofotografa a cada dois minutos sem deixar por um só tempo o telefone à mesa com seu topete impecável, o tênis esportivo branco sem sombra de uso ou sujeira e um perfume doce que sentimos desde depois do Mosteiro dos Jerônimos. Sarah foi até ele sozinha, com o passo destemido, perguntou se ele era mesmo ele, poderia mesmo ser outro, e pediu para fazer uma selfie. Ficamos a assistir ali meio de longe, sem fazê-la perceber, de modo que se sentisse completamente só e desprotegida, o que lhe deixaria ainda mais satisfeita por ter feito tudo por contra própria, sem o irmão ou a mãe na retaguarda. Agora nos abrigamos na Ler Devagar enquanto a chuva despenca forte e alto nesse meio de tarde. Entre os livros de 2 euros na promoção, encontro um volume de Filipa Legal chamado “Vem à quinta-feira”. Gosto demais da orelha e abro acasonalmente na página:

“Vem à Quinta-feira.

Mas não venhas nesta, vem na próxima.

Nesta, tenho um compromisso que não posso adiar, é um compromisso

profissional – sabes que isto não está fácil – e talvez nos dê hipótese de irmos

a Paris ou a Guimarães. Vem na próxima, que eu preciso de tempo

para arranjar o cabelo, para arranjar o coração,

para elaborar a lista do que me falta fazer contigo.

 

Vem à Quinta-feira e não te demores.

Enquanto te escrevo, já fui elaborando a lista

(sabes como gosto de pensar em tudo

ao mesmo tempo)

e afinal o que me falta fazer contigo

não é caro:

– viajar de auto-caravana,

– dançar pela Estrada Nacional,

– ver-te chorar.

Choras tão pouco. Ainda bem que estás contente.

 

Vem à Quinta-feira.

Se não pudermos ir a Paris ou a Guimarães, não te preocupes.

Vem na mesma, que eu vou apanhando as canas-da-índia, as fiteiras,

eu vou recolhendo a palha e reunindo cordas e lona.

Já estive a aprender no Youtube como se faz uma cabana.

Vem na mesma, que eu vou procurando um lugar seguro.

Vem na mesma porque a cabana, como a casa, só funciona com amor

– ou, pelo menos, é o que diz o Youtube.

Temos ainda tanto para fazer.

Por isso, se algum dia voltares, meu amor, volta numa Quinta”

 

Paris, se algum dia voltares, demoraste tanto, tempo para arranjar o coração, o cabelo, o que falta fazer?, essa dor que aperto com a mão esquerda pressionando a lombar que dia e noite me faz lembrar de uma parte do corpo que não imaginara existir ou que estivesse ali subrepeticiamente por tanto tempo a funcionar bem que não haveria razão para dar-lhe demasiada atenção, pois é disso que quando o corpo adoece lhe damos valor, lhe damos remédios, lhe damos conta. Corpo doente que nos mete medo que falhe, que entre em colapso, que fique fraco, adoeça e morra. Se está bom, ora, fazemos só comer e dar-lhe gordura, açúcar, nicotina, dezenas de hormônios, vitaminas e radiação neón. Folheio mais algumas páginas do livro e encontro um subtítulo que me atravessa – “pelo sim, pelo não, vou regando também as plantas falsas” – pelo que guarda de cinimo, autoironia e alguma força em crer no absurdo: vai que as plantas nascem. Vai que não são falsas. Nos enganamos tanto, vai que. Escrevo a ela com quem não falo há muito e nada sei desde o dia em que fechamos as contas do que nos restava e pus numa caixinha os vestígios das coisas ainda esquecidas naquilo que foi nossa mesma e uma só casa. Tento ser direto dizendo que estamos em Portugal pelos próximos dias, perguntando-me se foi tempo suficiente para arranjar o coração, pelo sim, pelo não, envio sem aguardar ou temer resposta, roubo um gole da Coca-Cola que Sarah toma sentada em meio aos livros de criança – já não está alegre, a foto foi pouco curtida – e acabo comprando um compilado de poemas da Florbela Espanca por dois euros que leio mesmo antes de deixarmos Lisboa.

[e]

Avisam-me que a malta de portugueses e brasileiros come num tailandês perto da praça do Rossio. Pego a coordenada pelo gps e vou caminhando entre as ruelas e vias estreitas escuras pelas quais eu jamais andaria sem estar com o cu na mão se tais fossem as vielas vazias e ruas estreitas da Rio Branco ou na Cinelândia num sábado à noite. Erro umas três vezes, até que por acaso caio no endereço certo depois de caminhar em hexágonos. Do lado de fora vejo Luciano, com quem estive uma única vez, aqui mesmo em Portugal, há algum tempo num festival de cinema, ambos apresentávamos filmes. Ainda do lado de fora ele me dirige um olhar como quem pergunta o que diabos estou fazendo aqui e eu repito telepaticamente a pergunta. Peço uma cerveja assistindo a todos comerem samoussas de legumes, arroz com frango e curry, achando a maior graça na lisboeta que conta histórias das aulas que fazem juntos, cinema, fotografia, Eduardo Coutinho. Não durmo direito há quatro noites, revezando a vida entre turismo intenso e noites desequilibradas sozinho por Lisboa, na forma que melhor me rendeu hematomas, amigos que jamais tornaria a ver, encontros improváveis – como a búlgara que me pede informação e terminamos por trocar contatos enquanto ela me assegura que seu marido poderá encontrar os registros da nossa família cujas origens hoje parecem mais tomadas por lendas e ficções do que por qualquer verossimilhança histórica. Mesmo assim topo seguir com eles até Alfama onde, dizem, haverá música.

Luciano põe um baseado na roda que fumamos enquanto compartilhamos as neuras e belezas de sermos estudantes brasileiros na Europa. Conto um pouco de Paris, dessa coisa de viver como um estrangeiro numa língua alheia, dos bons croissants, dos vinhos de dois euros que tomamos aos baldes, do jazz na La Gare de graça depois das 21h, da cidade cara pra caralho, da grana acabando, da falta de perspectiva sobre o que virá. Não parece ser diferente do que eles me contam. Vamos caminhando assim analisando as estátuas e os homens sobre os cavalos, parando eventualmente para fotografar alguma coisa e perdendo-nos com certa frequência cada vez mais alto por Alfama até que topamos com o Tejo Bar sobre o qual ouvi falar por tantas vezes e que nas minhas imagens era maior, mais interessante, a música mais boa de ouvir e agora tá tomado por turistas que viram a pontuação no tripadvisor enquanto um pianista ataca uns acordes acompanhado por um só português no violão vestido com ar de punk. Sinto-me invadinho o território alheio quando entro no e encontro as paredes todas pichadas. Por ocasião de não sei o que tenho no bolso uma caneta: entre escritos em todas as línguas, gente xingando e amando, desenho do jeito que posso uma baleia: era aqui que você vinha? Cansamos todos logo do bar, inclusive os portugueses que dizem que os fados já não são como eram, penso que estou longe e haverá uma rua da misericórdia inteira para atravessar. Peço que me expliquem a saída do labirinto de Alfama e a portuguesa engraçada me desenha um mapa que a princípio me levará sempre para a mesma saída, de modo que se o sigo estaria girando sempre pelos catetos de um triângulo de onde jamais encontrarei saída. Rimos do mapa, beijo a todos e me perco pelo labirinto de pedras portuguesas, luzes incandescentes baixas, gatos ariscos e o manto silencioso da noite como se a cidade fosse despertencente do mundo, solta pelo espaço num tempo entre uma portugal medieval e os apartamentos de airbnb que lotam toda parte.

[e]

No aeroporto, sento no café onde estive um ano antes, quase exato, compartilhando a mesa com um sanduíche de aspecto neurótico e um chá gelado. Naquele dia mal olhava as portas, mal ouvia os anúncios de desembarque, mal me sustentava nas pernas, ressaca de cerveja, uma dor de cabeça insuportável de uma noite desdormida, mil cigarros fumados, o cheiro de tabaco no cabelo, nos vão dos dedos, um vazio insondável engolido pra dentro do peito, dois voos, uma conexão em Frankfurt e mais de 15h até desembarcar no Rio de Janeiro sabendo que nada mais seria como antes, desde a noite passada. O que viria depois? Sei dizer hoje, mastigando esse sanduíche, a contar por todos os dias, noites, rumos e desrumos tomados, mas não me sinto mais sábio prestidigitador por isso. Ressignificar a memória não como se fosse um arquivo estocado em meio aos outros túmulos e sarcófagos datados pela taxonomia dos museus e arqueólogos, tirá-la dos imperativos dos traumas dos psicanalistas, dos psicologimos determinadores, das forças estruturantes dos nossos édipos, otelos, narcisos, vênus. Ressentir os cheiros do que nunca foi gosto, materializar o peso do corpo no espaço, sobrescrever os discos rígidos da memória como um arquivo .txt. É preciso ver que neste aeroporto existem também linhas de entrada e saída, lojas, paineis com avisos luminosos e horários, um pouco de arquitetura, de fronteiras, de emoção, da garota miúda que desembarca pela rampa de acesso e mal toca o corpo de alguém que lhe espera fazendo deitar todo o choro que ficara guardado nas últimas 13h sentada na poltrona 23, corredor H, entre a senhora que lia as cartas de Mandela, os últimos lançamentos do cinema na pequena tela sem brilho, os copos de plástico deixados pelas comissárias de bordo, as nuvens espessas e negras do lado de fora que cobrem Lisboa e atrasam o voo, o sono, o amor de muita gente. Sabem as companhias áreas, ferroviárias, elétricas, o quanto estão atrasar esses choros que ficam guardados em voos inteiros? O voo agora está atrasado, elas não chegam, espero pelos abraços quentes invejando a menina de olhos vermelhos e coração acalentado. Algo que não muda é que o lanche que continua terrível, o chá verde insosso e a internet gratuita que me permite responder a todas as mensagens atrasadas nesse acúmulo de mensagens insuperável uma vez que quando achamos que fizemos de tudo, há sempre aqueles que respondem quase que subitamente e mal nos dão tempo para desculpar-nos pelo atrasado da mensagem anterior e agora já estamos cá outra vez atrasados. Precisaremos de respostas mais habilidosas, mentiras mais convencíveis ou uma aparição súbita, dessas que cortam o tempo como a amiga que conhece o código do elevador invadindo a casa num sábado de manhã sabendo que haverá comida e um sofá para repousar o corpo da noite que ainda não terminou, como quem é desconvidado para uma festa e ainda assim sobe ao palco para dar parabéns aos noivos num batizado.

No livro azul de Afonso e as baleias, leio o parágrafo:

“O meu amigo colecciona dor. Não em galerias ou museus, como quem se dedica ao estudo biológico das várias formas de sofrer. Quando uma chaga aterradora o surpreende, não a envazilha num frasco, guarda-a no coração. Conta-lhe os ais, não os micróbios. Em vez de a analisar, decompondo-a, analisa beijando-a. No seu laboratório químico existe apenas um reagente que dissolve tudo: lágrimas”.

Deitei o choro do mundo no corredor dessa agência nacional de corpos migrantes, de transportadores internacionais de sotaques, de câmaras de trazer pra perto e distanciar gentes, deixei uns três anos e tantos, e naquele dia não havia nada para olhar pra trás, ninguém para quem se desculpar, nem braços para acolher o corpo minutos antes do embarque. Tiro minha própria coleção de dores do coração e elas já não parecem pesadas, embora meus reagentes químicos dissolvedores tenham secado quando, há um ano, entrei pelo portal 13 sabendo que no ato daquele embarque estaria tudo infinitamente acabado.

No lado de lá do vidro fumê faz sol, a cidade redescoberta como se jamais nela houvesse antes estado: não estive, não este eu que dali a pouco não mais vai estar. Seja como for, este ano eu não morro neste aeroporto em Lisboa.