paris, junho tarda

Parece que mexestes com a mão
Em pequeninos e delicados movimentos
Desenhados pelos teus dedos compridos e finos
Com os quais metestes por dentro de mim
Tocando os órgãos até jorrar
O sangue pelos buracos da orelha
Dos fundos dos olhos vermelhos
A retina se expande, a íris se retrai

O corvo passa sempre às seis e meia
Hoje deu para não chover em Paris, o que me alegra
Mas sem chuva não tenho gosto de ir a parques,
ou ao Chez Adel para um verre de rouge
Só sinto o cheiro do café que coamos a cada dia mais ralo
E escuto um apaziguamento subterrâneo vindo pela janela do lado de fora
Pela qual miro ali ao fundo as insignificantes variações de cores de uma cidade
Inteira parda, cinza, bege, com seus triângulos equiláteros idênticos vistos do alto

Já hoje tu não fumas teu cigarrinho com os teus mesmos dedos
Pequeninos e delicados movimentando
A brasa pelo ar à medida em que segura teus cabelos lisos e duros
Da água densa, do mar morto, dos cachos que insiste
Em ativar com a mesma seriedade com que me olha e bufa precipitada
Estendidos no quarto, tudo anda tão misericordiosamente calmo
Dizes que é o som que o mundo faz quando há uma tragédia iminente

Já são 18h30, ainda é dia. Talvez hoje o corvo não venha.