correios

a carta vinha como um bicho chegado da mata, caminhar desconfiado, cautela, corpo empostado a ponto de ataque, boca e dente rasgando o pelo, a pele. embora não houvesse assinatura, selo ou timbre, carimbo ou aviso de recebimento, a letra indefectível incorrigivelmente anunciava que era você quem chegava, envelopada por um papel nem tão branco, nem tão fosco, destes que ficam firmes entre os dedos, que barulham quando raspamos as unhas sujas, destes que você escolheria entre tantos outros envelopes dispostos em estantes de acrílico nas papelarias do centro, onde comprastes barbantes, fitas e pregadores para pendurar tuas coisinhas.

contido no interior do envelope, sem destinatário ou remetente, havia debaixo da carta um silêncio. era teu. as folhas dobradas cuidadosamente com as quinas do papel encaixando-se confortavelmente uma à uma, fazendo um viveiro para nossas lembranças dispersas. por ser assim, quase esquecida, não podia vir de outra a carta que não aquela de tua autoria: escrevia sem dizer palavra, meses a fio, comprimindo os vértices da última vez que nos vimos, dos nossos últimos pesadelos.

 

como chamava mesmo a praia por onde corríamos desesperadamente?