esboço de um dispositivo para escrever uma tese

Pergunte-se sobre sua hipótese. Se já houver qualquer hipótese clara, escreva-a em duas linhas. Publique em alguma rede social, se precisar de reprovação alheia. Conte para sua avó, se precisar de aprovação alheia. Publique num mural de anúncios no supermercado, caso haja desejo de anonimato. Sinta-se livre para não escrever a tese após qualquer um desses movimentos: você já tem suas respostas. Vá para outro lugar.

Inscreva um círculo grande num campo amplo o suficiente para delimitar a maior área possível sem confundir-se com outros terrenos. Sente-se no centro desse círculo. Deite o corpo sobre a grama, a terra, o asfalto, o tédio. Olhe para o céu até que chova, até que um avião caia, até que a noite venha, até que morra. Tente não fazer nada durante esse tempo. A esta altura você deve estar se coçando. Não se coce.

Atire com a maior força possível seu celular contra a parede sem machucar conhecidos. Dos estilhaços faça um objeto qualquer, artístico ou com qualquer funcionalidade abstrata, e venda-o por 13 reais na internet. Alguém comprará.

Com os 13 reais que ganhou pela obra vendida feita pelos estilhaços de seu celular da mais nova geração compre o quanto puder de papeis em branco com formatos variáveis e canetas coloridas. Pode haver linhas, se preferir. Talvez cola, se restar algum dinheiro – é provável que não sobre nada.

Recorte tudo o que possa criar relação com o que você pensa, ainda que não se pareça tempo-espacialmente relacionável. Qualquer fagulha de interesse é potencialmente incorporável, uma vez que escrever é uma operação com signos, discursos, gramáticas, fonemas, figuras de linguagem que existem no mundo, e não um ato de invenção de gênios idolatráveis. As páginas em branco deverão ser preenchidas somente com informações alheias. Se algo parecer inédito ou muito particularmente seu, cuspa-o.

Assuma a pilhagem como método de trabalho. Essa é a nossa revanche contra a colonização do mundo eurocêntrico. Não apague as pistas deixadas. Não cite ninguém e roube tudo o quanto puder. Não permita sobra de migalha de pensamento alheio, incorpore ao máximo. Antropofagia é a prova dos nove.

Todas as manhãs, ou antes de dormir, caso não esteja bêbadx, leia poesia. Caso esteja bêbadx ao acordar, durma. Se ainda assim estiver bêbadx, opte ouvir Jimi Hendrix ou Daniela Mercury. Caso ainda não tenha atirado o telefone contra a parede, eis uma boa hora (tente não gritar para não haver encontros desnecessários com a polícia a esta altura, não será bom).

Em alguns anos descobriremos que o cérebro trabalha em regime de atenção próprio e não necessariamente obedece aos nosso desejo permanente por controle, culpe-o às vezes por sua incompetência em cumprir prazos – mas jamais use o seu signo para fazer o mesmo.

Não tome nenhum tipo de medicamento. Evite os agrotóxicos, tal como a própria bancada ruralista. Não compre armas. Jamais, por qualquer razão.

Em caso de angústia, ouça rádio.

Faça amigos que não se interessam em nada pelo que você pesquisa. Faça amigos que não se pareçam em nada com você hoje mesmo ou há vinte anos. Faça amigos na hora do lanche e logo em seguida esqueça-os.

Fotossíntese-se. Veja como as plantas inscrevem suas formas no mundo, como inventam cores e modos de relação singulares. Aprenda com as plantas a ficar em silêncio e ainda assim estar presente.

Anote todas as frases que parecem absurdas e imprestáveis. Não repita nenhuma delas. Envie sms para conhecidos com cada uma delas. Anote as respostas.

Procure não se envolver em relações destrutivas neste período. Você terá o resto da vida para sofrer por amor.

Não se apaixone regularmente.

Se apaixone três vezes em cinco dias no: departamento de imigração na: fila do auto-atendimento do bilhete de transporte no: veterinário.

Reconheça a inteligência dos animais como à altura do seu saber. Eles também te acham estúpidx. Aprenda o que há no caminhar dos gatos, comunique-se com os pássaros. Prefira os peixes aos pareceristas ad hoc. Os morcegos aos especialistas. Em caso de dúvida, consulte um urubu. Não fale senão com os golfinhos, as morsas, os tucanos e as serpentes.

Após 23 meses leia pela primera vez todas as notas que colou nos papeis. Agora, use as canetas coloridas. Escreva sobre as frases com outras palavras, repetindo-as integralmente.

Toque fogo em tudo.

Agora repita de memória. Comece pelo que conseguir lembrar. O resto, invente.