o amanhã não será um abismo

1.
O que houve que ontem mesmo
Dançávamos sob uma luz azul
Num karaokê barato atrás da Praça da Cruz Vermelha
De uma terça ou quarta
O que houve que até ontem cantávamos
E havia uma noiva que girava abraçada por tantas mãos
Que fazia o amor parecer tátil e era
Como se transbordássemos uns nos outros
Confundindo os limites de nossos próprios braços

2.
Recuso-me a morrer
Recuso-me a viver sob a pena desse estado permanente de morte
Querem nos fazer perecer de desânimo
De descrença
De cansaço
Estão nos sufocando lentamente, infiltrando monóxido de carbono
Na respiração das nossas ideias
Querem nos desunir até que sejamos
Apenas aparelhos vulgares desnutridos de magia
Destruídos por pílulas de ritalina
Que sejamos apenas a sombra de um reflexo embaçado e distorcido
Querem atrofiar os músculos dos nossos sonhos
Com repetidas manchetes de jornais passados
Projetos de leis que parecem retirados do portal da inquisição
Donde as bruxas feministas conjuram do fogo ardente seus últimos
Agouros contra essa maldita raça de homens poderosos, brancos e velhos desalmados

3.
Querem nos fazer matarmos a nós mesmos, uns aos outros
Querem que saltemos do mais alto prédio
Para que nossos corpos façam um estrondoso
Barulho pairando sobre os corações
As manchas da angústia no assoalho das nossas escolas
Nas nossas esquinas, na vitrine de nossos desejos
Do peso de existirmos a isso que se destina

4.
Não, Belchior
Não somos os mesmos
Como os nossos pais
Mas também estamos correndo perigo
E o perigo não é poesia, não é metáfora
É a arma quente e a bala na nuca do menino preto enterrado na vala aberta dos pobres
É o aço que corta as carnes e não é como canto dos pássaros
É a dura e crua navalha afiada
De Médici, Geisel, Figueiredo, Bolsonaro

5.
Querem nos convencer de que nossa juventude
Desfibrada não tem mais tenacidade pra batalha
Nem tão moços, nem tão velhos, querem nos crer derrotados
Querem nos dizer que nosso destino finado será o mesmo
Dos nossos amigos quem tem suas vidas atalhadas
NÃO!
Recuso-me a ser este algoritmo decalcado
Recuso-me a aceitar o gongo de mais uma vitória decidida
Às portas fechadas por uma elite de 513, quase todos, amaldiçoados

6.
Não serei o último a fechar a porta e apagar a luz
Meteremos o pé nela antes que nos apaguem
E se fizerem do amanhã um abismo
Talharemos em carne e sangue nossas próprias asas.

[para luiz giban. para bruno e raquel]