nem todos os céus refletem na terra

Com o olhar comprometido se envolve ao fósforo como uma ponta estendida que perfura o céu do quarto projetando um enorme buraco penetrável ao sol dos trópicos quente e destemido, como uma grande antena emissora de sinais radiofônicos, de virais publicitários, de canções de corações inebriados, para no segundo instante e ao mesmo tempo ser mais um fósforo e só fósforo de madeira de uma cor tão específica que é preciso passar muito tempo girando-o em torno de seu próprio eixo por entre os dedos roliços investigando com precisão microscópica cada variação dos pigmentos sem com isso chegar a qualquer resultado exato, retornando então ao lado de lá da pólvora para no movimento seguinte em um novo semi-círculo sem tender jamais aos 360º completos que daria à vista o volume e profundidade do todo. Assim sem lhe importar se na terra dura faz inverno, se tem escola ou férias, sem lhe tocar que a nova sanção do presidente Trump autoriza que cabeças de elefantes possam migrar de países africanos explorados enroladas em sacolas de pano ensanguentadas como hediondos troféus figurados nas paredes de casas imensas com dez ou mais quartos, como pinturas ultrarrealistas que impressionam por sua semelhança com os objetos retratados e aqui neste caso tem a absoluta coincidência entre ser eles mesmos os objetos jazidos agora inanimados pelo desejo incontrolável dos matadores desde já consentidamente autorizados a caçar indistintamente seres de tamanhos e forças enormes fazendo terríveis e escandalosos quadros com balas de calibre encorpado, caçadores alimentados por dez ou mais funcionários, provavelmente mexicanos também igualmente explorados e gentilmente convidados pelo mesmo presidente, não ao baile, mas a pagar com seus rendimentos modestos um muro alto, reforçado, feito em arame, laser, câmera, explosivo e concreto pesado, uma nova Berlin rachada no interior da América Latina do Norte, impedidos assim de visitarem seus familiares às vezes clandestinamente, a não ser que cruzassem de outra maneira todo o globo à procura de uma outra rota que, pela China ou Austrália, ou as ilhas Fiji derivantes nas águas onde se escondem seres assustadores e encantados, no sul do Pacífico Sul, aportando em Ciudad Juárez ou Chihuahua, antes do fim da fiesta de los muertos. Os mexicanos, as cabeças cortadas dos elefantes, Trump, os problemas de imigração, os monstros marítimos do Triângulo das Bermudas, nada disso lhe concerne, a não ser o palito de fósforo fazendo do tempo histórico um dado dispensável, como se fazem apenas ruídos atmosféricos as demoradas conversas dos corpos que ao seu lado guardam as compras do mercado, esvaziando dos vocábulos os sentidos determinados pela gramática, desfazendo as conexões entre as palavras, seus acontecimentos, suas ordens entre sujeitos, predicados, pronomes demonstrativos, sintaxes neutras, sintaxes sem semióticas. Lhe tomam só as intensidades: ora hiperlento, demasiado veloz, morno, dissonante, frio. Estado de oceano. Estado de céu gritante trovoado. Estado de nuvens acumuladas. Estado de vento cortante. Estado de noite agitada. Em longos tempos uma palavra lhe toma não pelo objeto que designa, não pela ação do verbo referente, talvez pela quantidade de “a” que tem e “a” falado faz um movimento gostoso na boca variando quando ele aparece em “gata”, “mariposa”, “baba” ou “amora” ou porque o “r” vem do fundo da garganta como uma cócega, e na hora de dizer “remédio” alonga-se o “r” só pra sentir essa cócega que a palavra faz, descobrindo assim maneiras inéditas de usar os músculos da língua e rachar os vocábulos num só movimento não adestrado. Não escuta quando os homens invadem aos chutes a casa cobrindo os rostos com as próprias camisetas, agitando os braços buscando desfazer em movimentos circulares a fumaça espessa e escura que tomara os cômodos e agora rapidamente chegara já aos vizinhos como o prenúncio de um desastre de proporções irremediáveis em curso. Nos cômodos superiores encontram duas crianças pequenas tombadas com a absorção do monóxido de carbono tragados nos cigarros em doses menores e aqui, de tão denso quase visível, enquanto os móveis de compensado, a televisão, os brinquedos velhos guardados, o armário meio detonado, são consumidos por um fogo implacável que em sua fome insaciável avança e se esparra multiplicando-se por onde passa num rastro de beleza lancinante e horror com a mesma magnitude mortífera das explosões dos vulcões outrora adormecidos, seus rios medonhos de lava vermelho em brasa, mas não ouve os gritos alucinados, a mãe em estado de choque, um quarteirão inteiro queimado, alheio a tudo isso o garoto assiste ao espetáculo de uma coisa tão minúscula, insignificante, de uma cor indescritível, um só palito de fósforo, fazer do mundo sol num estalo.

[inspirado por uma notícia de jornal]