demolições

a casa onde cresci será arrasada
por homens que desconhecem suas manias
marretadas seguras derrubarão uma a uma
todas as vigas e sob o concreto desarmado
ocultarão-se os anos passados
presentes jamais vistos nos grossos álbuns
familiares três ou quatro décadas depois que vir
desabada no último golpe seco

era uma casa com teto
embora fosse também
muito engraçada com seus cômodos
minúsculos donde nossa imaginação
dilatada esgarçava as fronteiras
entre o íntimo e o de todos na
respiração contaminada que se
ouvia por entre suas estreitas paredes

a casa impedia toda forma
de interdito

com frequência os animais nos visitavam
junto de suas patas garras grunhidos latidos
pelo forro se protegiam à noite faziam família
conspiravam revoluções esquerdistas
houve uma vez que mijaram nas nossas cabeças
quando finalmente o silêncio adormecia
silêncio de morte e vida
é que se ouvia da casa o universo
com seus misteriosos acordes em arranjos desarmônicos
na hora em que fantasmas nus passeavam à vontade
pela casa que também nos dava um medo danado

aos primeiros sinais de velhice
contornávamos com as próprias mãos a marcha
veloz do tempo em tons de azul roxo amarelo lilás
a vestíamos com outros assoalhos como nós mesmos
trocávamos as roupas a pele os cabelos as torneiras
que às vezes pingava ou o ralo entupido sistematicamente
às sextas-feiras por bolos de lodo ancestrais
ao sábados a resvetíamos com tapetes largos
com grossos panos sobre o sofá cuidávamos
da casa como um corpo de um recém-nascido delicado
a botávamos pra dançar em faxinas matinais

hoje a casa onde cresci será demolida
dos mesmos tijolos e detritos farão
crescer em seu lugar uma nova casa
mas esta já não será a casa onde cresci.