mini-facas no meu corpo [partes do fim]

É um equívoco achar que a vida se passa como uma série de lances arranjados de maneira linear. O cinema fez um ótimo trabalho nesse sentido. As novelas, o romance, a Netflix, todos seguem fazendo o mesmo. O capitalismo também. Nas fábricas, escolas, hospitais, nas filas bancárias. Por toda parte, por onde passamos, há um tempo remetendo à ordenação do mundo em sessões como grandes caixas organizadoras, da infância mais terna à morte lenta. Nos apelos que fazemos às injustiças sofridas, nos presságios das noites porvir, cremos demais que o tempo está alinhado às repetidas lógicas de causalidade cartesiana. Há um tempo que está sempre ali, bem direitinho, de uma ponta à outra, dos dinossauros à Revolução Francesa, do Golpe de 64 ao de 2016, na linha reta da História oficial dos povos e das nações. Na linha reta das histórias familiares e individuais, de 1987 a 2017, de uma era a outra, passando pelos seus começos, finais e meios. Quanto engano.

E se o tempo fosse assim não mais definido pelos ponteiros do relógio ou medido pelos movimentos dos pés no asfalto, pela passagem de um disco inteiro nos fones de ouvido, pela duração das ditaduras, pela mensuração da distância entre sólidos, pelo escorrer das areias ou por um pêndulo de bronze ininterrupto? E se o percebêssemos como um fluxo de intensidades variáveis, grandes e pequenas, graves e agudas, molares e moleculares, que nos cortam do instante em que nossos brônquios rebentam com a primeira respiração, o cordão decepado, o choro ardente e desesperado do nascimento? Como um cutelo afiado que mutila o tempo não em pequenos pedaços menores que podem ser guardados e acumulados aos montes como fragmentos de pinhole em acervos fotográficos, pinçados pela memória que a eles retornam indiferenciadamente a cada noite mal dormida, a cada saudade apertada, a cada brotar da nostalgia. O tempo como uma faca amolada que toca a carne da cronologia e lhe fere e talha em fissuras transversais, na invenção de buracos e camadas de modo que se acumulam e se contaminam umas às outras, fazendo com que as vejamos nas sobreposições de superfícies translúcidas, de uma maneira que o antes e o depois estão amalgamados pela impossibilidade do tempo se cristalizar numa imagem do todo, de tudo. Pois ali onde havia uma casa já há uma árvore e também uma casa e uma sombra. Onde havia uma construção há um prédio inteiro, três senhoras sentadas numa varanda e também uma escola em ruína com os tijolos da fábrica de tecidos. Onde havia um desejo pulsante há as sobras de um almoço, chás de hortelã e gengibre, escritos em cadernos e diários e também os sexos excitados dos jovens recém-chegados e encorpados de desejo. Uma espiral do tempo onde não há mais o antigo e novo, o ontem e o amanhã, tão-somente a contingência do agora que atualiza os tempos e não nos põe na direção do progresso e do futuro, ou de um passado mais ou menos longínquo, que está sempre em linha reta, em primeira ou marcha-ré. Um tempo todo composto de espirais complexas, de pedaços de pernas, galhos, notas musicais, de eus confundíveis entre outros, de poros e veias abertas. Um tempo que explode cotidianamente em pequenas e gigantescas revoluções e que não está isolado pela distinção entre acontecimentos datados. Um tempo em si mesmo que nos desloca da nossa vã crença de que somos nós que estamos ali a organizá-lo.

E se nadássemos até o fundo do nosso inconsciente e ao chegarmos lá nos déssemos conta de que ele é uma antiga piscina vazia e que não há nada que nos permita conhecer mais profundamente além do que aquilo que performamos na superfície das nossas vidas arriscadas diariamente na labuta de estarmos dolorosa e alegremente [vivos]?

***

Numa vida nunca mais a vejo. Na outra nos encontramos de repente, no meio de uma rua, às 16h47, entre um metrô e outro de uma cidade onde nunca moramos. Numa vida sei de você por amigos em comum, da formatura, da barriga que cresceu, as crianças que vieram. Em outra, o interfone toca numa segunda-feira bem cedinho e sei que é você na porta. Por instantes penso no que fazer. O alarme insiste e ninguém se pronuncia na casa. Sou eu que preciso abrir. Limpo o rosto com a manga da camisa, atendo o telefone para sinalizar que alguém a ouviu, pego as chaves, ainda meio atordoado pelo sono recém-desperto, coração acelerado batendo um-dois-um-dois-um-dois.

Um-dois-um-dois-um-dois.

Numa vida abro o portão e você me dá um soco na cara, bem no olho direito, o mesmo que ficou roxo há anos numa saída de uma boate e até hoje eu nem sei bem. Em outra, a vejo e você tem o cabelo azul. E amarelo. E careca e sem sobrancelhas. E com um corte tão curtinho que mal a reconheço. Numa das vidas você está diante de mim irreconhecivelmente igual ao dia em que saiu daqui por esta mesma entrada. O cabelo vermelho que reluz na luz do amanhecer, essa luz de inverno do Rio que é tão suave e quase nos engana como se a cidade não fosse foda pra caralho de se viver. Os vocábulos sabotam, não há palavra justa. Mas temos os nossos corpos e os corpos são tudo o que temos – ainda que os atuais conceitos de propriedade nos convençam de outras posses. Abro os braços como quem diz: “Vem”. Numa vida você me chuta o saco. Na outra, cospe na minha cara. Na outra, ri, me chama de sacana machista e sobe deixando que eu leve a mala. Em outra, você também abre os braços e se aninha em mim, como se o movimento fosse ainda reconhecido, como se os antigos corpos agora já estranhos tivessem em si contidos inexplicavelmente as coordenadas de uma união transitoriamente [in]estável, na fricção das peles e das temperaturas que se encontram e se repelem após segundos de um silêncio e uma aliança impenetrável aos ônibus nas ruas, os pedestres, o cachorro que late na casa ao lado. O que se passa entre o primeiro abraço e o último nestas breves horas que duram vinte e poucos anos não podem ser contabilizados. Acontecem em muito pouco a quase nada e se estendem em muito. Duram toda a minha existência e só uma fração de um dia qualquer.

Numa vida os livros são retirados da estante com lentidão, por gênero e espécie literária pelas tuas mãos calmas e zelosas. Na outra, você se recolhe na entrada do quarto que já lhe pertenceu e agora você mesma já não se reconhece ali, ou ainda ao se reconhecer reluta em aceitar o quanto daquilo lhe compete. Numa vida outra você se deita nua de bruços até que alguém faça o almoço e a chame para se juntar à mesa. Em outra, você se encosta na janela fitando a pedra manchada de verde pelos musgos, pelos líquens e pelos mijos dos sapos que à noite bufam e cantam e trepam sob a lua crescente invisíveis da altura da nossa casa. Em uma vida sou eu quem se encosta na janela com devoção ao sentimento de melancolia que invade a despedida e você me conforta com: “Outras janelas virão”. Numa vida estamos todos juntos em casa e almoçamos sentados à mesa de madeira, as cadeiras coloridas, comemos aquela mesma travessa de legumes com azeite que eu tanto fazia e você tanto gostava. Em outra vida a gata também se senta à mesa e lambuza os bigodes com sal e alecrim. Em uma das vidas você ainda tosse os resquícios da pneumonia e lhe dou uma colherada de mel e limão com guaco como se isso fosse o melhor que pudesse fazer e minha medicina não-halopática soasse assim também como um gesto de ternura como quem diz que ainda é possível haver amor depois do amor. Em uma das vidas discutimos amargamente sobre tudo o que aconteceu e os porquês, com ódio brutal, até que somos interrompidos por uma mensagem no telefone que nos leva para outras partes das nossas vidas independentes e autônomas. Em outra vida nada falamos e nossos olhares dizem tanta palavra e é tudo tão ambíguo e paradoxalmente ainda nos amamos tanto e estamos impossibilitados de nos nos amar e nos movimentar em qualquer direção que não seja a da porta que quando você diz que precisa ir embora, pegou tudo o que havia deixado, as malas grandes lacradas, 16h e pouco, o dia passou rápido e foi tão longo. Você estava aqui ontem, ontem faz um ano, um ano foi mais que o século XX inteiro, agora já é outro dia.

Numa vida a deixo para que se despeça de todos vagarosamente, respeitando o tempo do adeus aos objetos que também lhe enterneciam. Em outra, a assisto aproximar-se da gata com delicadeza e ternura, invejando o jeito como se encontram na intransponível distância que as separam agora. Em outra vida, descemos juntos pelo elevador, em meio às malas com tudo o que havia ficado para trás daqueles tempos e agora cabem em três grandes pedaços de pano, plástico e rodinhas. Em uma das vidas nos agarramos por alguns segundos como se nossos corpos fossem se embrenhar e se fundir um ao outro. Conheço a tua boca, o teu cheiro, o jeito de segurar teu pescoço. A insistente cronologia do tempo parece não ter feito fagulha a isso. Em uma das vidas o elevador pega fogo e nossos corpos são incinerados ali mesmo e o jornal do dia seguinte dá uma nota singela citando Carlos Drummond de Andrade como se fôssemos um caso qualquer de polícia, paixão ou quem sabe ainda mesmo as duas coisas. Em outra, nos despimos e fazemos amor até que uma vizinha fetichista nos pega no calor de nossa ousadia. Em outra, o elevador subitamente estanca no térreo assinalando a interrupção furiosa da nossa atração.

O táxi parado na porta, só temos tempo de pegar as malas e ajeitá-las no bagageiro. Numa vida olho pra ti e digo pra ficar. Na outra, você diz que não quer ir e pede para ficar. Em outra você chora com raiva e me chuta o saco pela segunda vez. Em outra, pego a moto e corro atrás de ti atrapalhando todo o trânsito da rua onde eu nunca quis morar e agora sofro ao deixar. Na outra, ficamos sem jeito, sem palavra, com o silêncio pleno do mundo, com os tempos todos nos atravessando na intensidade do agora como grandes blocos de sensações, enorme blocos de sensações que não se atualizam em ditos ou juízos. Em uma vida toco o teu rosto que segue macio, nos beijamos na bochecha confusos.

Em uma das vidas acaba assim.