a nós, que fazemos cinema na escola

MÁQUINA-CINEMA | MÁQUINA-ESCOLA

 

Com o cinema entramos na escola pelo meio [pelas brechas no tapume, janelas estilhaçadas, portas quebradas ou, ainda, pulando o muro. Entrar pelo meio como as crianças e jovens que fazem da escola floresta, pista de skate, antena de rádio, laboratório de alquimia, baile funk. Sua ação não se dá na constituição de trajetos que se contentam com a criação de pontos pré-determinados, como se estivesse à espera de uma agenda a cumprir. Ele faz abrir as clareiras na mata, não trilhas; traceja círculos onde antes o que se via eram estradas. Desloca objetos, os desfaz e os remonta – por vezes também os destrói. Na floresta de “signos escolares”, o cinema faz confundir os nomes. Sua ação recria a circularidade sujeito-objeto em modo perpétuo. Perturba itinerários estabelecidos através de sistemas cronológicos autossuficientes e exclusivistas por onde trafegam enunciados, comunicados, declarações, boletos, notas, advertências. Se algo nos ensina, é sobre a invenção da educação mesmo: na companhia das imagens, ativada por suas formas sensíveis. Nos leva à besteira, ao pensamento em seu estado não-pensante. O cinema é um operador disparatado – ou um estrangeiro bufão, como querem. Alguém que pronuncia com sotaque não decifrado, gagueja / emudece. Dizem: é transbordamento. Não reconhece muito bem os avisos sonoros e visuais: faz deles ferramentas. Desejo das práticas emancipadoras, da crença na não-individuação da subjetividade exaurida por processos homogeneizadores, forças de supressão do mundo do marketing, da polícia, do Estado-nação. Crítica à transmissão das formas de pensar, à sobrecodificação dos modos de ser e sentir.

E o cinema na educação também produz centenas de linhas de segmentarização. Renova e fortalece hierarquias de relações verticais, se impõe no exercício das palavras de ordem, dá continuidade ao projeto de extermínio da sensibilidade. Exímio orquestrador da vigilância e do controle. Inventor ativo do esquadrinhamento espaço-temporal escolar, domesticador da indocilidade dos corpos. Manda dizer, sentar, silenciar, correr, imaginar, criar, refletir, aprender, conhecer, sentir, sofrer, chorar, matar, morrer. Conforma discursos enaltecedores e transformadores. Aposta em grandes desafios, em vias de revelação, crê firmemente na sua capacidade de produzir a mudança – e, neste caso, está perfeitamente enlaçado ao mundo mesmo e suas estratégias disciplinadoras. Grande fazedor de promessas edificantes. Afiança o princípio da educação libertadora rifando a potência emancipatória. Engenheiro civil dos ritmos, das intensidades. Ceifador dos possíveis.

É assim que o cinema pode ser na escola muitas coisas: também entrando pela porta da frente, como seus vizinhos que são muitos.

O cinema faz tudo isso ao mesmo tempo. Não espera que se fabriquem novas figurações onde a vida se vê positivada para interromper seus fluxos de determinação, repressão, codificação e morte. E é daí mesmo que derivam, emergencialmente, as linhas que escapam às produções de sentido asfixiantes. É quando os domínios do que é da escola e do que é do cinema se enxergam entrelaçados. É porque a máquina-cinema, ao perfurar a máquina-escola, não faz isso sem se acoplar também a outras tantas máquinas, sem a interrupção de seus circuitos já existentes e em ótimo funcionamento. No melhor dos casos, o cinema trama as condições de possibilidade para a produção do curto-circuito. No pior: ratifica o fascismo, é desejo de morte sobre a vida. É que as forças de destruição e criação fabricam mundos juntas continuamente. Na pretensão de organizá-las produzimos ainda mais a sua confusão de modo irreversível. Há um vai-e-vém contínuo entre as potências de libertação e as energias do enclausuramento. Como são múltiplas e não-isoláveis as suas interações, devemos desconfiar amplamente da mitologia que consagra ao cinema uma enorme qualidade renovadora – ao passo que devemos olhar com cuidado a todos aqueles que apostam o contrário, entre progressistas e policiais.

As condições prescritivas às quais estamos expostos e nos submetemos parecem tomadas dos pés à cabeça por sobredeterminações completamente ajustadas ao exercício do biopoder e do neoliberalismo contemporâneo, também na escola. Longe de qualquer ideal utópico, de toda forma de crença ingênua e condescendente com a moral, a lei, o Estado, que acompanha a entrada do cinema no mundo do ensino-aprendizagem, muitas vezes, resta-nos então pensar sua interface com a educação a partir de certas engrenagens técnico-afetivas mesmo, seus modos específicos, comuns e particulares, de funcionamento: fazer ver, fazer sentir. São as aberrações e seus movimentos de disfunção aquilo o que mais nos interessa, ao passo que combatemos os modos de vida encarnados na imagem que só fazem repelir os processos de diferenciação – mesmo que estejam imbuídos das melhores intenções. Se os colocamos juntos é porque não nos parece haver outra maneira que não essa: contaminação e contágio, por vezes, involuntário.

Por fim e primeiro, é preciso pensar a vida. O cinema e a educação passam por esse desafio inalienável. Dualismo que não se esgota na dualidade. Não se trata da passagem de um domínio a outro. Mas de zonas cinzas, degradês variáveis. E por estarmos tão suscetíveis às mecânicas econômicas, liberais, capitalísticas, muitas vezes as reproduzimos de forma naturalizada, no interior de iguais regimes de exclusão, manutenção das práticas supressoras de todos os modos de vida diferenciados. É porque nas paredes das escolas vemos as inscrições de sua modelagem e a manifestação da topografia do poder – inseparável dos pichos em canetas hidrocores, dos avisos e datas comemorativas, dos calendários letivos, dos adesivos de bandas de rock. As estratégias de normalização e modelização subjetiva, entranhadamente instituídas, se apresentam a cada vez que a câmera se instala no centro de suas contradições e convoca os corpos, vozes, presenças, como intensidades animadas, intensificadas pelo dispositivo cinematográfico – prontos para ebulição das zonas que antes separavam o que faz parte da vida organizada e o que se entende enquanto um excesso, uma extravagância, um sem fundo, aquilo que chamamos vez ou outra de arte.

O cinema só deveria entrar na escola se sua missão for a de a de produzir algo que ainda não existe, uma nova singularidade na existência mesma das coisas, do que é pensável, inteligível, sensível. Se não o for, é melhor que nem venha. Já há gente e coisas demais a se fazer, por toda parte.