o dia em que morri foi um dia bastante normal – I

O dia em que morri foi um dia bastante normal, me parece. Não obstante o fato de que morri, as coisas seguiram muito tranquilamente no plano terrestre a não ser para o meu cachorro que não pode ser alimentado e sofreu um bocado minha ausência até que outro o tomou e muito provavelmente tenha se dado conta de que apesar de não ser eu o outro havia comida, água fresca e sua sobrevivência se manteria de alguma forma intocada ao largo da vida até que ele mesmo morresse pondo um fim nas ditas demandas materiais.

Para mim, que estava morto, não foi um dia bom, tampouco ruim, pelo que posso me recordar [já depois de tanto tempo. O caixão que me arrumaram era apertado e não me dou bem de certa maneira com lugares assim por onde o ar não circula à vontade. Ademais, havia um cheiro horrível de coisa morta e de merda que me fez querer sair dali imediatamente. Logo que saí, na persistência do cheiro, percebi ser a merda minha mesmo, o que me fez buscar num instante um lugar onde pudesse me lavar, tirar a terra vermelha que me cobria todo o rosto e trocar definitivamente aquele terno que me punha um aspecto sorumbático e moribundo desconfortável – ainda morto me sobrava um grande e inequívoco senso estético.

Como passava das nove e fazia bastante frio naquele dia de outono ou verão (não estou de acordo com a ideia das estações no modo como a usamos por aqui neste planeta, mas este é outro assunto e estamos com o tempo apertado hoje), optei por procurar um abrigo no centro. Porém, me faltavam os documentos, afinal, estava morto e me tiraram tudo, o que não era muita coisa, e isso de não ser identificável poderia criar uma situação bastante constrangedora caso eu viesse a ser interrogado pelos nem sempre tão solícitos policiais ou qualquer gente cujo trabalho é manter a ordem das coisas garantindo que mortos permaneçam mortos e os vivos continuem sendo só imbecis – muito embora saibamos todos que há gente a morrer por todos os lados e não nos ocupamos demasiadamente desses assuntos que nos tomam a atenção os jornais e só nos fazem sentir culpa. Ainda que denegue a ortodoxia-teológica ou a teologia ortodoxa do catolicismo, o que eventualmente faz com que a ideia de culpa seja trabalhosa em minha vida, e por conseguinte também na vida dos outros que comigo se relacionam, enfim, vinha dizendo que neste dia sobre o qual discorro que coincide com o dia da minha morte decidi encontrar a sorte na igreja por acreditar que não recusariam a presença de um morto infiel, ainda mais num terno assim tão mal alinhado como eu estava.

O fato é que neste momento em que iniciava minha trajetória, como um novo Cristo renegado à redenção, fui assombrado pela Vida Eterna. Tomei um susto enorme, de pronto, e acabei deixando escapar um gripo que espantou até mesmo um pássaro bastante carismático e de canto lírico que se meu ouvido estava certo naquele dia era seguramente um Ré menor. “Está cheirando a merda”, foram suas primeiras palavras. Diferente da ideia que tinha, e da sua colega Morte, bem mais feia e mal-educada, Vida Eterna não usava manto ou tampouco carregava consigo qualquer artefato que a diferenciava de outras mulheres com as quais me dei – mais ou menos bem e por vezes desastrosamente mal – ao longo da vida. Assim que então perguntei logo quem era e solicitei seus registros pessoais garantindo a transparência da nossa comunicação, pois aparentemente ela sabia quem era eu e isso criava uma enorme desproporcionalidade entre nossas recém-apresentadas identidades. Atendendo ao meu pleito, entregou-me seus registros trabalhistas, algo que eu mesmo não via já há muito e pegou-me como que de surpresa. Apesar de parecer-se mais jovem na fotografia 3×4 do presente documento, fui convencido da veracidade dos fatos que a ligava ao seu nome – Virina – e iniciamos uma conversa bastante interessante sobre sintaxe e morfologia. Contrariando minha suspeita inicial de que era russa, Virina vinha da Ucrânia e falava um português perfeito cujo sotaque pude perceber ser de Minas.

Confesso que fiquei um pouco ressentido por ao longo da vida ter-me dedicado tão pouco ao estudo de curiosidades sobre a Ucrânia [o que não me permitia citar poeta algum ou ainda discorrer sobre as guerras destas terras do leste que são mesmo bem pouco televisionadas e nos chegam só como pequenas emergências que muito prontamente se apagam. Ao que me parece Virina não se incomodou com meu desconhecimento sobre seu país natal dizendo essa ser uma situação bastante comum entre as pessoas que vivem na Terra.

Já sentindo-me como um amigo próximo – e de longa data – de Virina, perguntei-lhe se teria alguns trocados para me emprestar de modo que pudesse comprar uma roupa nova de algum morador de rua e enfim limpar-me da merda toda que havia feito. “É preciso passar pelo posto de registro”, contou-me um pouco constrangida e entendi que era pelo fato de que sua função enquanto uma trabalhadora de carteira registrada nos planos astrais tornara-se demasiado burocrática tendo muito o que fazer todos os dias com tanta gente assim morrendo a todo instante.

Fui atualizado também que as coisas andavam de mal a pior, pois com a eminência da guerra já havia uma especulação de que seu turno seria aumentado para além das já sufocante 40h semanais, fora o anúncio de que teria horas extras não remuneradas a cada quinzena, sem dizer das situações emergenciais dos que vem de desastres e outros cataclismas nem sempre provocados pela natureza e não podem assim ser anunciados previamente. Estava muito curioso para saber como Virina tinha chegado a este cargo que na minha opinião era bem mais valorizado e supostamente menos sobrecarregado, mas fomos interrompidos pela necessidade iminente de um chamado que vinha sobre um novo atentado que até aquele momento não sabíamos ser terrorista ou governamental. De modo que me despedi rapidamente de Virina com planos de nos encontrarmos alguns dias depois, algo que não veio a acontecer infelizmente até ainda hoje – o que me fez perder novamente o interesse pela Ucrânia.

[continua]

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