Retorno à Colina

O cheiro doce e podre
Emana das frutas mordidas
Despedaçadas e decaídas
Confundindo-se entre ervas daninhas
Flores mortas e ressecadas
Sacolas plásticas, terra e detritos
Desfazendo a cronologia do tempo que
Enlaçara pretéritos imperfeitos, perfeitos
Mais-que-perfeitos passados
E porvires imponderados

Saltam pelas árvores macacos
Atropelando-se uns aos outros
Numa batalha territorial de grunhidos
Apavorantes e escandalosos
Onde agora resta tanta comida
E por não haver disputa multiplicam-se
Alegremente pelo terreno [vazio?]
Substituindo os corpos de macacos mais
Bem-desenvolvidos [seriam de fato?]
Que copularam em seus quartos cerrados

Quase outono, a luz atravessa sequiosa
As raras brechas deixadas
Por sequoias, bromélias e outras tantas
Árvores inomináveis em seus múltiplos
E incontáveis tons de verdes
claros verdes
verdes vivos
vibráteis
delicados
orgulhosos verdes amareláveis

Sem tocar as paredes da casa
E as camadas de demãos de tintas de tons
Apastelados enaltecedores da melancólica
Lembrança de uma velha casa por onde
Já viveram tantos amores de beijos demorados
Casais alterados, crianças gordinhas e eufóricas
Uma senhora recatada de suspeitosos hábitos
Cartas de baralhos cósmicos entre amigos embriagados
Gatos, muitos gatos miados
Não ousa sol dos raios aproximar-se demasiado

Pelo portão de lanças brancas
Nem tão afiadas que pouco amedrontam
Invado a residência que hoje mais não é
Minha [embora ainda me pertença e eu a ela
Nos suspiros silenciosos da madrugada
Os degraus são tantos que
Há de subir à sua chegada
Que o corpo ralenta e o ar rarefeito
Necessito de pausas quase sempre dramáticas

[silêncio]

 

Espiralo o caracol amarelo
Gigante e enferrujado e sobre sua coluna passo
a passo delicadamente escalo a encosta
Até o ponto mais alto de onde se vê
A varanda e os grandes vasos de barro dos fícus
Que não foram e lhes dizemos que um dia
Voltaríamos [mentíamos?]
Nessa espera [nos esperavam?] tediosamente resistiram
Retorcidos e bem menos volumosos
Em sua solitude agora suprema e admirável

Os batentes das janelas foram trocados
Mas os cabos e fios de instalação
Permanecem os mesmos emaranhados
Entre galhos que já ultrapassam
Limites nunca antes pronunciáveis
Impedindo ao olhar o acesso ao
Mar na cidade distante de onde me chegam
Apenas ondas mecânicas que reverberam
As breves e frágeis ondas oceânicas
Que nos invadiram a cada noite

Os cômodos desprovidos de móveis
A torneira ainda gotejante que ecoa como enxurrada
Aranhas e formigas, rastros e marcas que deixamos no assoalho
A casa se reconstitui em nossa ausência
Apenas no que minha vista alcança em
Meu limitado espectro-eletromagnético
A pedir licença para adentrá-la em suas misteriosas linhas
Com minha precária participação nas coisas do universo
E o absolutamente insignificante choro nostálgico que
Daqui de dentro alguém que não vejo ouve.

Sinto o cheiro de amora.