noite agora

Por não haver nunca luz no prédio
Ponho-me na densa escuridão a brincar
No elevador com o interruptor desses que
Já não existem hoje assim nos mais modernos

Torno-me invisível entre o
Primeiro, segundo
No terceiro andar esclareço, breu pleno
Acerto a chave na terceira: 302 é o meu mesmo?

A gata recebe-me às mordidas
Golpe-a me o nariz certeira
Sangro, grito e furioso
Dou-lhe um beijo molhado engolindo sua cara brava e achatada
Saturno devorando minha prole
A cabeça dentro da boca
Inteira baforando o álcool
Das 236 cervejas tomadas, quase todas quentes
Cuspo-a ao longe de modo que vira assim
Uma borboleta enorme e bastante gorda
Fita-me os olhos com duas piscadelas
Como quem diz “obrigado” saltando pela janela

As estantes conservam tuas cores
Vermelho, amarelo, vermelho, vermelho
Fui contra tua assimetria apolínea
Com minha insistência dionisíaca
Em não fazer pares idênticos.

Os livros desorganizados por ordem analfabética
Quais são os meus? Alguns deixaste?
Roubarei dois ou três
04 Leminski laranjas e bigodudos iguais: “o Natal foi bom”
No quarto, a luz azul me amortece
Há o edredom – e também os cabides
Pedaços de coisas que jazem sem que
Pedistes asilo. Com elas faço o que?

toco
logo
fogo

São móveis retratos, galochas coloridas
Onde havia você a cada entrada: não
Não há. É a mim que trazem eu mesmo.
Único (?) notavelmente inteiro (?) aqui a entrar e sair
Também vou de cá a pouco eu mesmo
Que já havia ido e involuntariamente
Retorno, às vezes na madrugada, às vezes tarde passada
Com o vazio deixado pelo lado de fora
De mim mesmo, em teu espelho
Vejo agora outro cujo rosto pouco reconheço
Apesar de recordar-me demasiadamente alguém
Que seguramente jamais vi.

Das 597 noites dormidas, quase todas quentes
Duvido que também não te lembras
A esta hora de uma noite gelada de quinta
Ou às terças às 14h37, numa praia ensolarada
Ou num outro momento nem tão raro e qualquer
Como o justo e irremediavelmente intenso agora.