mini-facas no meu corpo | parte dois [perfurações]

***

Cansado das filas desmedidas, decido alternar o horário das sessões. Mais experiente e sabido dos fluxos deste lugar inospitaleiro, curiosamente chamado de hospital, atravesso com agilidade os corredores dos outros departamentos dirigindo-me diretamente à enorme ala da fisioterapia. Quando chego me dou conta de que todos parecem ter tido a mesma ideia e a fila é, senão maior, muito provavelmente a mesma dos outros períodos em que me aventurei por estes salões dos desesperados.

Como estou decidido peço uma reavaliação com a fisioterapeuta – a esta altura, já convivendo há tanto com ela (não a fisioterapeuta) conheço cada centímetro da dor e suas linhas irradiadoras. Quem me atende desta vez é Daniela, uma jovem morena carioca que pela sobrancelha perfeitamente desenhada e ausência de sorriso no rosto parece desejar que eu morra – às 21h de uma quarta-feira trabalhando neste inferno, eu desejaria o mesmo a quem quer que fosse. Por me sentir tão à vontade driblo a severidade da mulher e antes que ela me pergunte onde dói já me levanto performaticamente na saleta 1×1 de teto baixo e digo que a dor mudou de lugar.

Passei a pensar no meu organismo não mais como um edifício público dotado de seções, repartições, divisões e secretarias. Meu corpo agora é um mar e nele flutuam barcos a vela, encouraçados, transatlânticos, voadeiras, lanchas, caiaques. Sou sacudido pelas variações térmicas planetárias, transmuto em peso e forma com a proximidade da Lua, arrebato-me pelas ondas gravitacionais, sou maré alta, maré baixa. É factível que meu corpo gire e, portanto, gire com eles as dores que me assolam, à medida que me escavo pela superfície abrindo novas fissuras por onde entram e percorrem fluidos e memórias abissais, subterrâneas e horizontais, que só não foram vistas antes porque lhes faltava a luz para uma emergência topográfica. Meu corpo é mapa de afluentes e serpentes de água cujas bocas abertas vertem com fúria o sangue, o engolem e cospem para outras veias secas. Meu corpo não é o mundo rachado de Kafka: é uma vastidão e Daniela, a fisioterapeuta, não reconhece em nada desse delírio filosófico-poético qualquer sinal de lucidez clínica e me interrompe dizendo apenas que eu siga com as sessões diminuindo a distância entre elas “e até logo, por favor, o próximo”.

Descubro um lugar entre senhores que explodem inveja pelos cantos dormindo com as máquinas-de-curar-que-matam ligadas aos membros combalidos pelo tempo. Saco da mochila os livros de francês e reinicio a maratona de conjugações verbais repletas de sons, avez, avaient, arai, eté. Minha professora pediu uma redação para o dia seguinte onde devo prestar uma homenagem a alguém que muito admiro. Sinto-me como um jovem estudante ginasial redigindo suas férias de verão. Sem muita dificuldade escolho minha mãe dando início a um ensaio que deixaria Freud orgulhoso de tanto Édipo. Entre os papeis, documentos, remédios e outras coisas amontoadas pela mochila, deparo-me com uma foto minha e dela (não minha mãe) em nossa última viagem que por tremenda falta de sorte escorreu em direção ao meu olhar.

Na fotografia impressa em cores pasteis dirijo à mão inglesa o imponente carro 4×4, camisa branca comprida, cabelos desgrenhados e sem corte. Ela faz a foto instantânea no banco do passageiro usando um lenço que eu mesmo dei, comprado na Turquia anos antes (sempre dizia como ela ficava linda nele, ela fica mesmo). Olhamos os dois para a câmera, sorriso largo – à época lembro-me do riso ser sincero, estávamos mesmo absortos por aquele lugar, apesar de algumas dezenas de pesares. Agora mesmo já não sei bem – vinha de lá um sorriso de onde agora só chega um vazio repleto de mágoa. Não estamos bonitos, nenhum dos dois. Isso não parece ser importante aos sujeitos da imagem. Outra vez na vida recordo do poema de Ferlinghetti:

One not necessarily very beautiful
man or woman who loves you

One fine day

Questiono-me se em algum outro momento eu já teria a visto assim, tão cruamente, sem qualquer véu idealizador, sem as enganações e sabotagens, aratacas do amor, só um corpo em sua forma mais material. Percebo que somos mesmo mais bonitos nas fotos das redes sociais que só resistem ao tempo porque são cheias de filtros de mecânicas relacionais e quem as vê não sabe das nossas cólicas, do nosso mau-humor matinal, não sabe que dormimos e babamos de boca aberta, que temos pesadelos e espasmos durante a noite, não sabem das nossas inseguranças e quando veem nossas viagens plenas de aventuras e descobertas em lugares exóticos, nosso “sucesso”, não tem a menor ideia de que no fundo não temos noção do que fazemos e morremos de medo de que essa juventude se esvaia – esvairá – que esse rosto angelical suma – sumirá – que essa voz macia perca sua docilidade – perderá – que o corpo fique gordo e flácido – já está – que acabemos velhos, cheios de pigarro na garganta, sozinhos e frustrados, pensando nas crianças geniais que fomos e nos fracassos medíocres que nos tornamos no agora com um passaporte repleto de carimbos e vistos como bons burgueses que só retornam o olhar para o centro dos próprios umbigos sujos dos panos que saem das camisas de malha boa que compramos.

Agora Freud está mais que orgulhoso, eu diria.

Interrompo o julgamento instantâneo, cheio de juízos de valor recalcados, pouco generoso comigo e com ela ao me perceber assim tão inadvertidamente fora do mesmo pensamento que irá insistir em alimentar no mundo, nas coisas, no tempo em si, o dom da mudança. The times they are a-changin’. Agora sinto-me arrebatado pela comiseração. O presente é o único tempo possível para a vida. Não há nada mais além do presente. E o meu presente agora é este maldito lugar onde venho três vezes por semana para livrar-me de uma dor que não tenho mais dúvida alguma ser criada por mim mesmo. Pego o celular, faço um retrato do retrato e envio a ela. A mensagem não chegará jamais. É um truque criado por mim. Aproveito esse bloqueio intercontinental e segredo algo que gostaria de ter dito há pelo menos uns dois anos. Falo como um cochicho, em seu ouvido, suavemente. Ela sorri – afinal, agora já não pode mudar a feição eternizada pela fotografia, o atestado indelével de que houve algo no passado, sim, de que estava ali por conta própria, que escolheu a câmera, a pose, o momento exato de apertar o botão, a companhia, as roupas, o lenço no cabelo. Que agiu, foi soberana em suas decisões, é soberana em sua própria vida. Somos soberanos de nós mesmos e nada mais, não é pouca coisa. Compartilhamos este silêncio prolongado por alguns segundos. Eu, aqui, sentado na cadeira verde dura e ela, bem, não sei, nos recônditos da minha imaginação, no plano imanente da minha vida. Há em nosso silêncio sintomas de cumplicidade e resiliência profundos. Nesse silêncio a entendo, me entendo, chego a estar em paz. Termino de redigir o texto confidencial. Ela teria gostado de ouvi-lo, eu sei. Provavelmente me envolveria em seus braços e mãos e me daria um beijo suave na bochecha. Quanto tempo já…

Vejo que as mensagens não foram mesmo entregues, guardo tudo na mochila e volto a rememorar os adjetivos que preciso decorar para a redação sobre minha mãe. Mal completo o segundo parágrafo – sem dicionários ou tradutores digitais, apinhado de pequenos erros ortográficos – e sou chamado para a sala de ondas térmicas. Elle est trés amoureuse.

8 minutos. É o tempo que se leva para cozinhar um bife no microondas.

Deixo o lugar um pouco atordoado – é tudo muito rápido por aqui sempre, contrastando com o tempo dilatado do meu espírito. Dali sou encaminhado diretamente à massagem. Deito de bruços sobre a maca, a cabeça enfiada num buraco e a bunda semi-descoberta. Ao meu lado mais umas doze pessoas estão deitadas ou sentadas em macas azuis semelhantes, exercitando os músculos em atividades repetidas lentamente ou recebendo de mãos desconhecidas toques em pontos específicos. Enquanto a mulher (cujo nome não soube e o rosto tampouco pude fixar nos breves segundos em que nossos olhares se atravessaram) passa em mim um produto de limpeza qualquer, ouço um homem narrar que dos pés à cabeça seu corpo dói inteiro há um ano. Penso que estou assim há apenas um mês e esta situação já me esgota por completo. Sem mover-me demasiado sinalizo pra mulher onde a dor, que se moveu mesmo, estou seguro disso, agora está. Ela inicia a manipulação dos meus glúteos para não dizer que passei vinte minutos recebendo uma massagem nos ossos da bunda mesmo – ou no rabo, como preferem os portugueses. A massagem repercute instantaneamente. Enquanto ela aperta meus ossos traçando movimentos circulares vou sentindo dores ardentes. As ondas espalham-se pelo corpo, são os barcos que navegam esse oceano permitindo-se naufragar para outros mares menores, perdendo-se no triângulo das minhas bermudas, derivas e continências.

Levanto da massagem com dificuldade e caminho até as escadas que levam à acupuntura. Uma mulher grande e negra de cabelos encaracolados está parada como uma guardiã do Olimpo. “Ainda dá tempo?”, pergunto sem jeito. “Claro, coisa gostosa!”, ela responde sem qualquer traço de timidez ou delírio. Começo a rir imediatamente achando que entendi algo errado, mas não me arrisco a perguntar outra vez. Não sei o nome dela, penso na Irene de Bandeira, na Irene cantada por Caetano, aquela preta que não precisa pedir licença na porta do céu, que dá risada. A minha Irene me introduz à sala da luz azul e vai conversando debochada sobre tudo. Parece ser a única a ter alma por aqui – uma alma qualquer que sabe gargalhar a despeito de tudo, enquanto tudo parece ruir, enquanto lá fora o pau quebra entre tiros e mortes, ônibus queimados, Irene que não deve ter a vida nada fácil, talvez muito mais dura que a minha própria, a esta altura da noite ainda não perdeu a capacidade maravilhosa de rir. Conto a mesma ladainha da mudança das dores, ela parece convencida também. Irene mete as agulhas na minha bunda e eu fico lá deitado outra vez de bruços, à mercê do mundo. Sinto ficar mais tempo do que o programado, talvez seja só Irene fazendo o que pode pelos aflitos do mundo, com suas mãos e instrumentos mágicos, com suas agulhas da cura.

Irene me deixa como um relâmpago após sacar os espetos da minha bunda marcada por pontos vermelhos, vinte e seis exatos minutos após ter entrado. Levanto-me encurvado por conta do teto baixo. Diante do espelho ao fundo da sala vejo meu corpo mais magro do que jamais esteve nos últimos anos. A barriga se encolhendo como que entrando fugida, fagocitando a pele. Visto a bermuda que cai apesar do cinto estar apertado no último furo. Me olho outra vez, detidamente. Vou fitando cada pedaço de carne, músculo, pelo, como um analista que acompanha as moléculas entrarem em confusão através de seu potente microscópio. Antes que outro paciente entre ou que Irene invada este ínterim de privacidade e comunhão comigo mesmo, tiro a bermuda e a cueca. Agora estou nu diante do espelho. Não há tempo: começo imediatamente a dançar nessa boate neón oitentista sem trilha, sentindo apenas a batida e os ruídos produzidos pelos barcos que cruzam de uma ponta a outra meu mar em chamas.

Tenho um corpo, um corpo dilacerado. Ainda assim – é um corpo que sabe dançar. Ah, e como danço!

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