mini-facas no meu corpo | parte um [o dia depois do dia]

Salto do táxi no trânsito caótico da Voluntários da Pátria, já quase hora do almoço, e me dirijo à enorme porta de vidro com as siglas impressas em letras de plástico: C-R-E-D. Um segurança de terno alinhado sorri “boa tarde” e sinaliza com mãos imensas o balcão de atendimento. Pessoas circulam rapidamente vindas de todos os lados. Fico indeciso sobre qual dos quatro guichês procurando a atendente de rosto mais maternal. Uma hora antes havia falado pelo telefone com Fátima e, agora, ali na minha frente, nenhuma delas se parece com a imagem que criei da afável Fátima, que me tratou com enorme respeito e atenção. Invisto na mais velha e digo que preciso de uma consulta urgente. Tento dar mais explicações, mas ela solicita de mim apenas a carteira do plano de saúde e pergunta se já tenho cadastro. Digo que é a primeira vez que sinto estas dores (não é verdade) e ela pouco se importa novamente. Sou levado a outro guichê para completar o cadastro e minutos depois estou sentado numa longa fila entre muitos outros que devem, assim como eu, estar neste exato momento sofrendo dores das mais variadas – nos ossos ou na alma, ou mesmo em ambos.

Não gosto de médicos ou médicas em atividade, preciso confessar – posso até gostar deles em outros ambientes, à paisana. Também não me sinto à vontade em hospitais, laboratórios, clínicas, funerárias, cemitérios, prontos-socorros. Com a minha mãe aprendi desde pequeno que as dores não precisam ser tão levadas a sério e boa parte delas há de ser curada com leite ou chá quente, um bom banho e sono – foi desta maneira que minhas pequenas, médias ou graves doenças na infância e na adolescência foram tratadas. Na dúvida, algumas gotas de dipirona e “já pra cama”. Portanto, não sei se estranho o lugar pelo meu desconhecimento de causa ou se de fato parece absurdo essa clínica imensa, misto de salão de beleza, shopping center e repartição pública. Consigo diferenciar os doentes dos sadios pelas roupas: os de branco ou azul determinam quais são os afetados e que métodos deverão adotar para retomarem o pleno controle de seus próprios corpos. Àqueles ainda os costumam chamar “doutores” por aqui. Pego um livro para estudar esquecendo-me assim um pouco da lombar que me impede de sentar direito na cadeira de plástico de péssima qualidade. Quinze minutos mais tarde sou chamado à consulta com o “doutor” Bernardo que me aguarda em uma dessas baias de escritórios de advocacia.

Bernardo parece boa gente, com um sorriso gentil e ar de quem de fato sabe o que faz após tantos anos encarando crianças, jovens e velhos, cheios dos sintomas, verdadeiros ou imaginados. “Onde dói?”, a mais clássica de todas as perguntas da humanidade. Ensaio a dizer que dói tudo e preciso de um abraço com o risco de desatar-me num choro sem fim. Explico apenas que a dor se irradia pelas costas produzindo um estranho formigamento há mais de duas semanas. “Nas pernas também?”, questiona-me enquanto faço cara de desentendido com medo de qual é a resposta adequada – me levará mais a sério se eu disser que “sim” ou “não”? Opto pela sinceridade, digo que até agora não e ele parece assentir de um modo que me leva a crer que o diagnóstico está dado mais pela minha resposta do que pelo exame em curso. “Este remédio que você está tomando dá um sono danado, não dá?”. “E faz ter sonhos estranhos”, completo.

Deixo o “consultório” de Bernardo para um novo corredor que me levará às salas de exames. São dois: Raio-x e Ultrassonografia. Na linha de montagem dessa clínica de mortos-vivos nossos lugares estão sempre demarcados e há o tempo todo alguém que nos chama pelo nome: “Isaac”, “Isaac Alcantarilla”, “Isaac”, sem ter qualquer ideia se sou eu o Isaac ou aquele gordinho tatuado que dorme com a cara amassada esperando provavelmente o resultado do exame da sua patela ou o retorno da sua tia-avó que está fazendo massoterapia em uma das macas escondidas por entre os corredores labirínticos deste lugar inóspito e asséptico. Encontro uma cadeira vaga e sento-me após sinalizar que sou eu o “Isaac” deixando com outra atendente a carteira do plano de saúde. A propósito, a carteira do plano de saúde é o bem de mais alto valor neste lugar. Com ela posso inclusive me dar ao luxo de ir até a máquina de café e tirar um espresso quentinho sem pagar nada por isso. A carteira do plano de saúde é o meu controle remoto universal sem o qual não viverei por mais um segundo neste plano terrestre – ou ao menos enquanto estiver neste microscópico purgatório da vida real ou, ainda, pelo tempo que a empresa decidir subsidiar minha saúde em troca de serviços eventuais e não remunerados. Sou o poeta Virgílio desbravando os círculos do inferno à procura da minha Beatriz – ou o amado Bernardo – que me sanará as dores ascendendo-me assim aos céus das almas livres dos males físicos. Com o meu cartão do plano de saúde tenho direito ao emplasto que elimina todas as doenças, ao elixir da vida plena. O plano de saúde é o meu grão-vizir, meu amor eterno, ó, plano de saúde, te queria meu para…

“Isaac!”.

O primeiro exame acontece sem delongas: “tire os sapatos e a bermuda, por favor”. Penso em fazer qualquer piada, mas o homem parece tão afobado e de saco cheio com a própria vida que temi ser mal interpretado e ter meu resultado adulterado como uma possível vingança. Vai que me coloca um osso quebrado – ou um câncer, não sei. Há tanta coisa ruim para se ter hoje em dia. As fisgadas das costas me fazem gemer enquanto me posiciono de barriga para cima na maca gelada. Penso que a morte deve soar assim, como uma maca gelada com cheiro de produto esterilizante. Começo a ficar um pouco ansioso com a situação. Luz, aço, radiação, amônia, bisturi, agulha, sangue. Por que os lugares inventados para a cura são tão afeitos à dor, à solidão e à tristeza? Fico só nesta sala por cinco minutos enquanto ele faz as chapas na portinhola do lado de trás. O que há lá? Por que não me deixam ver? Por que não me pergunta se sinto medo, frio, saudade? Por que não explica o que é o exame e por que precisa estar tão gelado aqui dentro? Fecho os olhos e respiro “um, dois, quatro, duzentos e treze…”. A porta corre para a direita enquanto o homem sinaliza que estou apto a sair. Visto-me mais que depressa e retorno à cadeira da saleta anterior. Não me sinto apto a nada, para ser sincero.

Já passo de quarenta minutos lendo, sem muito avanço na compreensão do texto, quando sou chamado outra vez, agora para a ressonância. O examinador – é este o nome que dão a quem faz os exames? – pergunta o que sinto e pede pra que eu sinalize o ponto exato onde dói :”Meu caro, o coração fica no corpo inteiro”, gostaria de dizer. Aponto a lombar esquerda e faço círculos sobre os ossos das nádegas, cujos nomes não sei ou jamais soube. Tem nomes esses ossos? Deito de lado enquanto ele corre pela minha pele um instrumento sobre um óleo quente que passeia como uma carícia. “Não vejo nada”, me diz. “Também não vejo, mas ela está aí, sei que está, em algum lugar”, reflito. “Sem sinais de inflamação ou lesão, veremos se o raio-x diz algo”, assente e se despede deixando-me só outra vez.

Penso que minha peregrinação por essa via Crucis clínica se dará por encerrada no retorno à sala de Bernardo quando sou surpreendido pelo diagnóstico – um novo remédio por sete dias e dez sessões de acupuntura e fisioterapia, com início imediato. A esta altura o meu almoço já se foi e meu estômago nem ronrona ou suplica. Sinto-me apático, como se a cada segundo neste necrotério animado fosse me tornando mais enfermo, exaurido, esfarrapado. Sou agora o avesso ao que chamava antes de entrar como vida.

Descubro ser essa instalação um vórtex no espaço-tempo, um buraco de minhoca que a cada parte me recoloca numa nova temporalidade em suspenso. É a biblioteca de Borges, só que dos aflitos e desesperados, onde as salas dobram-se e multiplicam-se em espelhos que fazem com que cada túnel se converta num infinito corredor da morte, infinitamente. Parece que o universo estancou-se, sem movimento, e o cronômetro marca horas que só fazem sentido aos que estão aqui dentro. As cadeiras agora tem números, embora haja espaços entre os que aguardam. Onde estão os que deveriam sentar-se aí? Já mortos? Jazem em outros túneis impenetráveis a nós que não portamos as vestes brancas e azuis? Entendo que preciso sentar na última das cadeiras disponíveis, de número 12. A sala é composta por oito portas pelas quais vejo um homem entrar e sair. Ele avança por entre esses acessos velozmente, sem deixar-nos espreitar uma rusga de imagem. Vez ou outra alguém surge destas mesmas portas.

Penso nos caixas dos bancos, penso nos quiosques de fotografias 3×4, penso nos balcões de supermercado, penso nos batalhões armados do exército.

Aos poucos a sala se esvazia e vou aproximando-me dos números iniciais nessa ordem de chegada – não há prioridade qualquer, máximo respeito a quem veio primeiro. Aqui, não há passado ou biografia – desde que você tenha a carteira do plano de saúde e as mensalidades em dia, é preciso lembrar.

Meia hora e sou chamado por um homem alto, careca, trajando um jaleco que ultrapassa os joelhos. Entro numa saleta minúscula com teto baixo que me obriga a andar agachado, iluminada por uma lâmpada azul que se parece com a do meu próprio quarto. Sinto-me estranhamente em casa. Entrego a ele um envelope com as agulhas que recebi na recepção, após encaminhar a guia assinada por Bernardo. Ele volta cinco minutos depois e pergunta o que sinto. Conto a mesma história outra vez, já cansado de repetí-la. Desta vez, decido ir além: “Tem outra coisa também… terminei um relacionamento longo”, falo um pouco sem jeito, meio baixo, como que para não ser ouvido. Ele suspira fundo. “É fogo… faz quanto tempo?”. Confesso que há apenas uma semana, nebulosa e amargamente. “Tiveram filhos?”. Pela minha tela mental vejo nossas vidas inteiras, incluindo as que não vivemos ou viveremos jamais juntos. Teríamos filhos? Como seriam? Quantos? Você dizia que eu seria um bom pai. Teria ela o teu bico quando pequena, meu jeito agitado, nosso gosto pelo mundo? Sinto o joelho doendo e lembro do empurrão, da queda, da perna machucada, da discussão em seguida, daquele cara. Dos meus gritos. Dos teus gritos. Aquele trem, os aviões, uma cidade que não entendi e agora fica fragmentada em minha memória, cheia de buracos, já como de partida. Aquilo tudo aconteceu mesmo? É tão distante, vem como que se esvaindo-se. Penso nela e a imagem me escapa, sai pela janela. Essa fuga dói. “Não houve tempo…”, é só o que digo. Talvez seja melhor pensar assim. O tempo entrou em descompasso. Ele suspira uma vez mais enquanto coloca em mim as agulhas, uma a uma, com um cuidado paternal. Sinto meu corpo latejar e reagir às espetadas, o coração acelera bombeando sangue pelas veias e artérias produzindo um estampido alto, forte, seco. Lembra como você ouvia o meu coração batendo como se pronto a saltar para fora do peito?

As agulhas me fazem sentir ainda mais dor. “Ainda estou vivo”, penso. Fecho os olhos e esboço um sorriso. Estou vivo.