nas planícies do etosha escorreguei meu coração

Ao norte da desértica Namíbia, o Etosha National Park é uma monumental planície formada por mais de vinte mil kilômetros quadrados – ao longo dos séculos XIX e XX o parque foi perdendo gradativamente seu imenso território, que um dia já teve mais de cinco vezes o atual tamanho. A redução de sua área foi igualmente acompanhada da extinção de espécies de animais e plantas pelos humanos.

Essa vasta porção de terra, boa parte do ano intocada pela água, recebe as chuvas de verão como um alento. Durante esses três curtos meses, os animais e a vegetação se pulverizam pela paisagem, conquistando outros territórios restritos na estiagem. Não mais concentrados nos waterholes (os grandes “açudes” naturais que servem como fontes de água para os seres) que fascinam os olhares dos turistas e caracterizam as imagens da África selvagem aos olhos do Ocidente, os animais se beneficiam das diversas correntes naturais de água que brotam de norte a sul e leste a oeste do parque.

Nos arredores da colossal Etosha Pan – um deserto branco onde nada florece, nem sobrevive, o maior deserto de sal da África, podendo ser visto do espaço – é possível avistar manadas e grupos de girafas, elefantes, zebras, gnus, órix, springboks, antílopes, gnus, avestruzes, impalas, leões ou mesmo os solitários rinocerontes, velozes leopardos e chitas ou raposas sorrateiras. Pelos ares, pássaros de cores e tamanhos variados criam contornos por entre o céu que alterna do amanhecer ao cair da noite em tons e degradês que fazem a curva no horizonte extenso.

Percorrer o parque de uma ponta a outra pelas estradas principais ou arriscar-se por dentre os muitos trechos paralelos é lançar-se igualmente ao jogo do acaso. Diferente dos zoológicos e safáris onde os animais estão à disposição da presença humana e suas lentes, no Etosha é preciso pedir licença. Os encontros com os seres em seus modos de vida singulares – formas de alimentação, cantos, ritos, movimentos, paragens – é tocado por um silêncio e uma constante sensação de isolamento e distância. Ali, onde a humanidade não chega plenamente, os animais dominam a terra e se envolvem com o espaço e as diversas espécies de plantas e flores que compõem a savana, criando seus próprios territórios.

Em algum momento nossa espécie entrará em colapso. Etosha resistirá. Lá, os seres não precisam de nós.

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As fotos abaixo compõem um ensaio realizado por Ana Clara Conte e eu ao longo de nossa passagem pelo parque, com quem também compartilhei o amor e a alegria nessa jornada pela imensidão. O título deste blog surgiu de uma fala de Ana, no momento em que aguardávamos um grupo de girafas atravessar a estrada numa “lenta marcha para o leste…”