por um instante te vi e pensei que fosse sombra

cacos de multidão

destilam vacilos

incinerando beijos

de despedida.

 

as docas esvaziam-se

ao som do cargueiro

onde já não se via

gente desde a

vez em que estivemos

reunidos à espera

do cruzeiro que

partiria nossos presentes.

 

não havia dinheiro.

nunca houve.

 

disseram-nos

que até o final do ano

teríamos as contas pagas e

nos veríamos bem

cedo antes mesmo que

lhe escrevesse cem contos

ou lhe desse cem mil cigarros

já fumados pelos tocos.

 

não havia tempo.

nunca houve.

 

morremos às 18h33 daquela tarde

com a chegada do cruzeiro

que explodiu o mar em chamas.