amor[a]

amora saltou a primeira vez aos dez dias

para testar a firmeza dos ossos

a resistência dos órgãos

a aceleração do corpo em queda

assim usou a sua primeira vida.

 

a segunda perdeu ao se lançar na varanda

– aprendeu que as folhas serviam como paraquedas.

a terceira foi ao despencar da janela da cozinha

conheceu o quintal da vizinha de baixo, involuntariamente,

e também seus cachorros.

 

mais experiente, passou a escalar árvores

começou pelos galhos menores afiando as garras

observou a mecânica do voo dos pássaros e insetos

e nas copas cheias se atreveu com macacos:

desta vez entendeu que a melhor estratégia de luta era a queda.

 

da quinta e sexta não sabemos e saberemos.

talvez na madrugada

no pequeno telhado da sacada

no alto muro do sobrado à esquerda

no fosso do quintal.

 

pronta, amora se preparou para seu último salto.

antes, nos ensinou sobre a noite, a solidão e o tempo

nos contou sobre os seres ancestrais e os fantasmas

preparou nosso sono, protegeu nossos sonhos

guardou nossa casa, cuidou de nossas dores

 

amora saltou a última vez aos dez meses.

para sondar o mistério

explorar o intangível

mensurar o cosmos.

e então renasceu como infinito.