berlin [um filme]

Em algum momento de 2010, não saberia dizer ao certo quando, numa tarde chuvosa em Niterói, sentindo saudade de casa, do cheiro e da companhia de antigos amigos, tive a idéia modesta de um filme. A vida, e nós mesmos, havia se encarregado de nos espalhar geograficamente pelo mundo. Bauru, São Paulo, Belo Horizonte, Florianópolis, Montes Claros, Barretos, São João da Boa Vista, Buenos Aires, Rio de Janeiro, Berlin. Em meio à saudade e à solidão, imaginei o que cada um deles pudesse estar fazendo naquele exato momento, no interior de suas próprias rotinas, em meio às suas ocupações – o trabalho, os estudos, a academia, as aulas de inglês. Imaginei se chovia, se fazia sol. Se haviam comido salada no almoço, se estavam sorridentes ou febris. Poderia ter simplesmente interrompido o fluxo da nostalgia com uma ligação telefônica que amenizaria a saudade e os transportaria momentaneamente para o interior daquele quarto de parede salmão, onde já não vivo mais.

Decidi, assim, escrever um e-mail. Hoje, após tantos anos, buscando nos arquivos passados e jamais lidos, não reencontro o antigo texto. A primeira falha nesse dispositivo já anunciada – o filme deveria começar com a leitura do próprio e-mail cujo título, se não me falha a jovem, porém perturbada, memória – era “Um filme”.

Um filme.

Lembro de haver iniciado o texto dizendo sobre a saudade que me causavam e o meu desejo de estar mais próximo, de compartilhar a vida deles. Então, pedia que, do modo como quisessem, filmassem 5 minutos. Nada mais. Não traçava coordenada para as imagens, não delimitava fronteiras, não exigia conteúdos. Queria apenas que me dedicassem 5 minutos – naquela época ingenuamente não reconhecia o tom autoritário do pedido. Poderiam filmar o escritório e o chefe Amaury, uma caminhada até a conveniência do posto, uma festa com amigos bêbados e um violão, uma poesia declamada, uma partida de futebol. O e-mail foi encaminhado conjuntamente para 8 amigos. Com essas imagens, pensava, poderia montar um filme. Que de algum modo falasse sobre eles e mim. Sobre amizade, a distância, a saudade, o amor e a solidão. Selecionei uma data e pedi que me entregassem o material até aquele dia. Me encarreguei de garantir que não teriam despesas, embora o que eu lhes pedia era decerto um bem sem valor dedicado em nossos dias: tempo de vida.

Dos 8 e-mails enviados, obtive algumas respostas empolgadas de alguns com promessas verdadeiras, e o total descaso de outros. Só não esperava que o resultado pudesse ser tão pouco promissor. Após três meses, as promessas haviam sido diluídas em compromissos, vergonha, preguiça ou mesmo um “ah, eu não tenho uma câmera”. Me senti frustrado e solitário. Embora percebesse que aquilo interessava de fato apenas a mim. Não a eles.

Meses depois recebo a mais improvável das respostas de um amigo dizendo que, em passagem pelo Brasil, após um período morando em Berlin, havia deixado algumas imagens em São Paulo com o meu irmão. Assisti com um misto de fascínio e empolgação ao material gravado, enternecido ao ouvir a voz e vê-lo ali, exposto, atendendo com camaradagem e disposição ao meu pedido infame. As imagens foram sobrevivendo no meu computador ao longo de três anos. Ia a elas e procurava formas de organizá-las. Falhei por vezes e o projeto ficou engavetado.

Finalmente, em 2013, Berlin foi concluído. Este filme é uma retribuição ao sujeito que dividiu sua solidão comigo – e a quem devo minha maior gratidão. Engavetar as imagens seria trair a sua solidariedade. E um trato é um trato. Não se ignora assim um amigo.