o recontador de histórias

Perseguira aquelas formas por meses. Conquistou-as pouco a pouco através de um esforço descomunal em se fazer perceber. Vencida, ofereceu: escreva algo que me convença. Após seguir metodicamente o mesmo ritual no quarto restante de suas noites, tomou-se por derrotado e, pela primeira vez, roubou palavras.

Nos primeiros meses, desfilaram pelo mundo amando-se como os casais recentes. Passada a breve euforia, sentiu uma necessidade incontrolável de escrever. Recusou a cama compartilhada todas as noites e o sexo sem censura. Ela reagiu mal, enciumada, cobrando que ele se decidisse. Pediu que fosse compreensiva, pois nada o atraía mais que as palavras. Nem seus seios ou a nudez estampada. Jurava dedicação e fidelidade exclusivas, mas a trocava toda excitada por um verbo no particípio. Naquele estado de semiconsciência, somava aos desejos sinestesias e, de repente, a tinha a lamber morfemas. Fascinado, esquecia-a por contrações. Entre os dois, havia o desejo da carne; entre os outros dois, o mergulho no abismo da alma. Entre o romance, ao menos uma dúzia de paranomásias.

Abandonavam-no febris as mesóclises. Ele as mordia e sublinhava para que não se fossem. Pegava-as de quatro, puxava pelos cabelos, pelas aspas, e antes que pudesse atingir o clímax de seu capítulo: perdia o ritmo. Espalhavam-se pêlos e letras. Iam-se as duas. Restava o ponto. E o choro. Decerto que não possuía inclinação.

Ao passo de alguns dias encontrou-se atordoado e consumido. Dedicou-se, então, à leitura acelerada de tudo o quanto pudesse. Correu por bibliotecas, buscou acervos e antigos sebos, viu sua modéstia tornar-se, pouco a pouco, poço sem fim de uma busca insuperável pela visão ampla e etérea da literatura. Trocou o orgasmo mortal pela beleza eterna das metáforas. Ao longo da História decorou os nomes ainda que aleatoriamente dos menos nobres, requintados e benferidos poetas. Conheceu um a um dos prosadores – soberbos e medíocres. Reteve na memória trechos e citações completas, datou livros em ordens diversas que ultrapassaram a metodologia das enciclopédias. E a cada uma dessas leituras descobria-se de uma simplicidade criativa tal que palavras-suas não lhe vinham.

Assim, subsistiu através de um século assumindo o compromisso único de ser-usurpador. Dissecou o conteúdo de infinitas páginas organizando-as em centenas de outras variáveis, transformando-as em milhares de livros idênticos, diferentes em suas ordenações; refigurou arcádias em cubismos, em sua generosidade desfez poéticas e consagrou épicos indesejáveis. Ensejou tornar-se, em sua farsa, autor único, definitivo e indecifrável [por trás de uma série singular de ficções fraudulosas].

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 Culminou com a descoberta de seu Éden, passados outros cem anos. Um amontoado de pilhas disformes, sensação intensa de ruir constante. Uma infinitude de textos deixados pelo seu genial criador. Vislumbrou-se, por ínfimo instante, a capacidade de um autor único capaz de transitar pelo todo, mas os livros acabaram por se tornar recônditos atribuídos a uma entidade genérica [pois se julgou que a homem algum se admitira tempo e qualidade suficientes para o contento].

Nunca se soube, porém, o que o homem saboreou do conhecimento em troca de sua perdição: seu corpo, absorvido pela paranóia das fábulas roubadas, foi se esvaziando – até escorrer pelo tempo – com a odisséia de sua própria história: embora não tivesse escrito nada em absoluto.