12 etapas (e uma lição) para se fazer um filme-carta em tempos de whatsapp

 

  1. pense em alguém que você ama muito e não vê há tempos. se não se lembrar de ninguém, procure num livro. ou, se não houver amor, faça o mesmo exercício e lembre-se de alguém que detesta (é importante estar comovido).
  1. escreva uma carta para esse alguém.
  1. lembre-se: uma carta exige, necessariamente, a presença de um outro. ainda que o outro possa ser você mesmo. por isso de algum modo escrever uma carta é a um só tempo um gesto solitário e solidário.
  1. com a carta escrita, pegue uma câmera (leia em voz alta e confira se há erros gramaticais. caso os encontre, mantenha-os. se não houver, invente alguns: ninguém confia numa carta sem erros, escrita assim tão verdadeiramente sem rasura).
  1. não se esqueça de assinar antes de fechar o envelope.
  1. agora que sua carta está pronta, leve-a até o lixo mais próximo e rasgue-a. você também pode queimá-la se assim lhe convir.
  1. pegue uma câmera (ou o celular. peça o de um amigo, diga que não vai levar quase nada).
  1. confira se tem bateria ou pilhas, cartão de memória ou negativo. por um descuido pequeno desses alguns dos instantes do nosso imaginário poderiam ter se perdido para sempre (o que nos faz pensar, necessariamente, na fragilidade do cinema, das imagens e da memória diante do mundo. esta aí a sua salvação).
  1. lembre-se de tudo o que escreveu naquela carta, àquela pessoa. o modo como selecionou as palavras, o ritmo e a intensidade que conferiu à narrativa. lembre-se de como inventou os cheiros, os passos, os gostos, as lembranças. como descreveu o novo corte de cabelo, como contou do dia em que esteve chateado e, para afastar a tristeza, caminhou melancólica e solitariamente pela orla de boa viagem – ou do Leblon. lembre-se de como transformou em palavras o trágico episódio do roubo de sua carteira; a felicidade que foi ver seu filho formado; a saudade que sente daquele beijo.
  1. esqueça o que escreveu. esqueça as frases, os períodos, as vírgulas, as aspas, os pontos. vá esquecendo as formas da escrita e de todas as letras, do a ao z, decompondo mentalmente uma a uma até o papel voltar a se tornar branco. é importante ligar a câmera quando o papel estiver branco.

 

primeira e única lição: não há papel em branco.

 

  1. filme o mundo com a mesma paixão com a qual você escreveu aquela carta para aquela pessoa.
  1. aprenda a escrever com a câmera – esta etapa não se conclui jamais. quando se sentir seguro com essa escrita, encontre outra. busque formas de escrever como quem aprende um novo idioma. olhe para o mundo como se ele fosse um dialeto impronunciável. nunca deixe de ver o mundo como um dialeto impronunciável.